quarta-feira, 4 de abril de 2012

A HOMOSSEXUALIDADE, A IGREJA E OS GRUPOS EVANGÉLICOS

Por Davi Lima de Freitas


Há muito tempo que a abordagem do assunto homossexualidade me desafia, tanto como operador do direito, quanto como pensador e cristão.
O assunto veio à tona com força em três ocasiões recentes: a campanha presidencial; o reconhecimento, pelo STF, dos direitos civis em uniões estáveis homo afetivas; e a posterior discussão do projeto de lei 122/2006 (na Câmara, Projeto de Lei 5003/2001), no senado, que criminaliza qualquer conduta julgada preconceituosa em relação aos homossexuais.

Nas três ocasiões, o alarde foi geral, com os ecos das vozes contra ou a favor soando até hoje.
Nas três ocasiões, igualmente, os ânimos se acirraram e as posições se radicalizaram.
Mas o que mais me chamou a atenção, em todas as ocasiões, foi o posicionamento dos grupos religiosos, principalmente da Igreja Católica e dos evangélicos.
Na campanha presidencial, pra variar, houve de tudo: desde o surgimento de uma suposta namorada da candidata Dilma, até a promessa solene de Serra de que vetaria qualquer lei que, no dizer dos líderes religiosos, amordaçasse os pregadores que bradam contra o homossexualismo.

E-mails eram enviados desaconselhando o voto em Dilma porque ela seria a favor do casamento gay. Serra, mais hipócrita e cretino, desconversou, prometendo aos evangélicos que vetaria qualquer lei de teor homossexual, mas evitou condenar abertamente a união gay, de olho nos votos do seguimento. Baixaria e hipocrisia juntos, de mãos dadas, como sói acontecer sempre em eventos dessa natureza.
No episódio do reconhecimento dos direitos civis em relações homo afetivas pela Suprema Corte brasileira, mais alardes, mentiras, hipocrisia, desinformações e informações desencontradas.

Falou-se até que houve a legalização do casamento gay no Brasil e houve até gente celebrando casamentos em fóruns pelo Brasil a fora.
Cabe esclarecer aqui que não houve a legalização do casamentos gay, mas simplesmente a extensão dos direitos civis para os casais homo afetivos, dando ao casal o direito à pensão, à herança, à partilha de bens no caso do desfazimento da união, e outros direitos que têm os companheiros numa união estável.
A decisão diz respeito apenas à aplicação da Lei n.º 9.278/96 – Lei das Uniões Estáveis aos casais homossexuais e somente chegou ao Supremo porque essa lei regula o § 3º do art. 226 da Constituição, que trata exatamente da união estável, in verbis:

Constituição Federal
Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
(…)
§ 3o Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento.
Católicos ortodoxos, evangélicos tradicionais, religiosos fundamentalistas como um todo, bem como defensores leigos da moral e dos bons costumes, bradaram e protestaram de todos os modos possíveis, inclusive pela internet, em programas de televisão e em manifestações que se contrapunham àquelas organizadas por homossexuais e grupos GLBTTT.
Terminadas as eleições e depois da decisão do STF, o assunto voltou novamente à baila com a discussão, no Senado, do projeto de lei sobre os chamados “crimes de homofobia”.
Silas Malafaia, juntamente com outros líderes religiosos, inclusive católicos, organizaram um movimento contra o que eles chamaram de “lei da mordaça gay”, que, segundo eles, criminaliza a opinião e cerceia a liberdade de expressão e de religião. Esse movimento culminou com a entrega de um documento ao presidente do Senado, José Sarney, com milhares de assinaturas de cristãos de todas as denominações, contrapondo-se ao projeto de lei e protestando pela liberdade de expressão e religião.

Sem embargo de tudo isso, o assunto é atualíssimo e exige posicionamento, tanto das instituições, como das duas casas do congresso, dos tribunais judiciais, particularmente os superiores, e mais particularmente ainda o STJ e o STF, dos governos, etc.
E isso em decorrência do constante preconceito, discriminação e violência contra os homossexuais de todos os gêneros e espécies, sem levar em conta ainda a hipocrisia, numa sociedade em que o que se faz ocultamente, às escondidas, debaixo dos panos, é de revirar o estômago, tanto no campo da moral quanto no da honestidade.
Nos Estados Unidos, é comum o caso de políticos e pregadores que bradam contra as depravações sexuais e contra o homossexualismo, e depois são flagrados em orgias sexuais com prostitutas e garotos de programa.
No Brasil, a hipocrisia não é menor. Pelo contrário. É muito maior do que se pensa, ou melhor, do que sequer se pode cogitar, a quantidade de homens, casados inclusive, pais de família, que mantêm relações sexuais com jovens rapazes. Os garotos de programas parecem agradar muito mais a homens casados do que a mulheres de meia idade, apesar de não haver estatísticas quanto a isso.

Em uma conversa que tive certa vez com uma prostituta em Taubaté, ela me disse que um dos programas mais comuns que fazia, era com homens que a procuravam para serem penetrados por ela com pênis de silicone postos num cinto. Sei que isso, tecnicamente, não se enquadra no conceito científico de homossexualidade, mas serve a demonstrar o tamanho da hipocrisia reinante na nossa sociedade.
E isso sem falar na quantidade de líderes religiosos, particularmente padres (já que, entre os pastores, o pecado comum é o adultério) envolvidos em casos de pedofilia homossexual.

A discussão sobre os direitos civis dos homossexuais tem que partir de duas premissas básicas: o Estado laico e a dignidade da pessoa humana.
Mas essa discussão depende também do sopesamento com os princípios constitucionais da liberdade de expressão e liberdade religiosa.
O nó está justamente na questão de que uma das maneiras mais marcantes da discriminação é feita através da fala, meio pelo qual ocorre a maior parte da expressão humana e se propagam as religiões e seus ensinamentos.
Daí a inclusão do art. 20 e seu § 5º, na lei n.º 7.716/89, sede de todo o celeuma com os religiosos, que não abrem mão de defender o seu direito de se opor à prática homossexual ou de caracterizá-la contrária às Escrituras.
Outro fato a se considerar, é que o Estado é laico, mas a sociedade não. A sociedade é leiga, o que não quer dizer a mesma coisa. Laico é a quilo que não é religioso, que é secular em oposição a eclesiástico.1 Já leigo, do ponto de vista religioso, é aquilo que é ligado à religião mas não pertence ao corpo de sacerdotes, embora laico e leigo possam ser usados como sinônimo quando empregados de forma mais lata, mais geral.

Isso quer dizer que o Estado não tem Religião e, em assim sendo, não pode defender os pontos de vista religiosos desse ou daquele grupo. Quer dizer também que, em um Estado Democrático de Direito, não pode interferir em assunto estritamente religiosos; que tem que respeitar a liberdade de religião.
Difere e se opõe ao estado ateu, materialista, próprio dos regimes comunistas, nos quais a religião é vista como – nos dizeres de Marx e Engels – o ópio do povo.
A sociedade, por seu turno, é religiosa. Segundo o censo do IBGE 2010, dos 169.799.170 brasileiros, 124.976.912 são católicos-romanos, 26.166.930 são evangélicos, 2.337.432 são espíritas e 3.217.895 estão divididos entre outras religiões (umbanda, candomblé, judaísmo, islamismo, hinduísmo, etc.). Apenas 12.330.101 se dizem sem religião e, nesse grupo, não estão somente ateus, mas também pessoas que acreditam em Deus mas não seguem nenhuma religião ou que confessam crença em princípios religiosos mas não praticam nenhuma religião.2
Em termos percentuais, apenas 7,26% da população se diz sem religião, relembrando que, nesse números não estão incluídos apenas ateus, mas também gente que acredita em Deus e professa algum tipo de princípio ou ponto de vista metafísico, como os agnósticos, por exemplo.

Portanto, definitivamente, a sociedade não é laica. Ela professa crenças e acredita nos princípios religiosos que pertencem ao seu grupo e que são ensinados pelos seus líderes.
Ao Estado, por sua vez, e uma vez que não pode defender esse ou aquele princípio religioso, que não pode subvencionar nenhuma religião, somente cabe a defesa e o bem estar dos seus cidadãos, sejam crentes, agnósticos ou ateus, sejam homens ou mulheres, pobres ou ricos, porque esse é o papel do Estado laico.
E é aí que reside o ás da questão.

Da dignidade da pessoa humana
O Estado não pode deixar os seus cidadãos à mercê de um tratamento ignóbil, vil, aviltante, indigno e, muitíssimas vezes, violento.
Qualquer cidadão, cumpridor de suas obrigações, pagador de seus impostos, tem que ter a tutela do Estado brasileiros em ralação aos princípios e às garantias constitucionais insculpidos nos art. 1º, 3º e 5º, in verbis:
Constituição Federal
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
(...)
III - a dignidade da pessoa humana;
(...)
Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
(...)
III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;
IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios:
(...)
II - prevalência dos direitos humanos;
(...)
IV - não-intervenção;
(...)
VI - defesa da paz;
VII - solução pacífica dos conflitos;
VIII - repúdio ao terrorismo e ao racismo;
IX - cooperação entre os povos para o progresso da humanidade;
(...)
Para o Estado não há cidadãos melhores do que outros. Esse é o princípio da igualdade. Para o Estado, as preferências individuais dos cidadãos, entre elas a sua sexualidade, não importam, desde que cumpram as leis que regulam as relações dos homens entre si e destes para com o Estado.
Mas o princípio da igualdade não significa que o Estado deve fechar os olhos para as diferenças entre as pessoas.
Cabe aqui o mesmo argumento que foi utilizado para a lei Maria da Penha. Aquela lei não fere o princípio da igualdade porque, sabidamente, as mulheres são mais frágeis do que os homens; ou encontram-se, do ponto de vista histórico, embora não necessariamente do ponto de vista físico e/ou biológico, em situação de fragilidade me relação ao mundo masculino. Daí a necessidade de leis que as protejam da violência da qual são alvo pelos homens, tornando-as, de fato, iguais.
De outra banda, o Estado tem que garantir a dignidade do ser humano, até mesmo de quem está à margem da lei, como os criminosos. Daí a luta dos defensores dos direitos humanos.

Quer isso dizer que os mesmos argumentos que são aplicados na defesa dos direitos homossexuais, podem ser aplicados na defesa dos dos que estão à margem da lei, não querendo comparar ou dizer que a homossexualidade é um crime ou perversão. O foco, aqui, são os direitos dos cidadãos, dos seres humanos.
Por esse ponto de vista, o cidadão que tem uma opção sexual alternativa, seja ela qual for, tem que ter a proteção do estado nessa qualidade, membro da sociedade, mesmo porque essa sociedade, a maioria dela, já aceita a sexualidade diversa e a opção sexual de cada indivíduo que a compõe.


Da liberdade religiosa
Como dito anteriormente, o Estado é laico.
Isso significa que o estado não subvenciona nenhum ponto de vista religioso. Cada membro da sociedade pode professar a religião que bem entender: católica, protestante, evangélica, umbanda, macumba, espiritismo, islamismo, judaísmo, etc.
Mas essa faca tem um outro gume, implícito ou decorrente exatamente dessa última afirmação. Quer dizer: o estado não interfere no que ensinam as religiões, no que cada cidadão professa, desde que essa profissão não constitua um crime.
Isso seria simples se significasse apenas que cada religião pode professar o que quiser e ninguém teria nada a ver com isso.
Mas, e se uma religião professasse o sacrifício humano, por exemplo? O Estado deixaria de agir, relegando o assunto ao campo religioso próprio apenas?
Claro que não. Sacrifício humano é assassinato, aos olhos da civilização ocidental, e assassinato é crime.

Isso significa que uma religião não pode praticar atos considerados como crime, nem defendê-los ou defender a sua prática – o que também é tipificado como crime no código penal brasileiro.
Daí a mudança no § 3º, do art. 140 do atual Código Penal, para estender a pena da difamação e da chamada injúria racial à injúria decorrente da opção sexual, mas particularmente da homossexualidade.
Veja-se como ficaria a redação desse dispositivo legal com a alteração proposta pelo projeto de lei em comento:
Art. 140.
§ 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência:
Pena: reclusão de 1 (um) a 3 (três) anos e multa.
Daí também a inclusão do art. 20 e seu § 5º na Lei n.º 7.716/89, in verbis:
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião, procedência nacional, gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero:
§ 5º O disposto neste artigo envolve a prática de qualquer tipo de ação violenta, constrangedora, intimidatória ou vexatória, de ordem moral, ética, filosófica ou psicológica.
Então, surge aqui o conhecido conflito de normas ou princípios, quando um princípio parece contrariar um outro. Neste caso, os princípios da Liberdade de Expressão, Liberdade de Religião e Laicidade do Estado parecem bater de frente com a norma que criminaliza ou tenta criminalizar uma determinada conduta, conduta essa que só é possível se se respeitarem aqueles princípios.
Seria tão mais fácil se se pudesse simplesmente ignorar o fato quando ocorresse estritamente ligado ao exercício religioso, mas não é.
Muita da homofobia hipócrita que reina no consciente e inconsciente de parte da sociedade e é professada por alguns poucos, alimenta-se exatamente de ensinamentos religiosos.

Por outro lado, o Estado já bateu de frente com a religião e, na maioria absoluta das vezes saiu perdendo. Que o digam os governos materialistas e ateus das antigas e atuais nações comunistas. No mínimo, os governos que tentaram acabar com a religião ou suplantar seus pontos de vistas, tiveram que se adequar, embora a religião, às vezes também acabe por se ajustar aos costumes da época contemporânea, como fez o catolicismo aos longo dos últimos 300 anos.
Achei muito interessante o que ouvi de certo padre, abordando justamente a questão do “casamento gay”. Ele disse que a Igreja não concorda com o chamado “casamento gay”, nem com o comportamento homossexual, mas que o papel da Igreja não é condenar ou julgar os homossexuais, mas recebê-los e confortá-los. Bem diferente do que a Igreja se arrogava nos séculos IX a XVII.
Bem diferente também de alguns líderes evangélicos que parecem mais juízes do que evangelistas (não quer dizer a palavra evangelho exatamente boas novas), esquecendo da máxima de Jesus: Não julgueis para que não sejais julgados.

O que fazer, então?
Sem embargo, não há religião que subsista se não tiver como fundamento o amor. O próprio catolicismo, quando se elevou à categoria de religião oficial de estado, sofreu grandes derrocadas, ao se arvorar em árbitro e carrasco, e não em hospital espiritual e médico de almas.
Por outro lado, a religião tem sido o principal esteio dos padrões morais da sociedade, às vezes com êxito, às vezes não. Mas isso é tão crucial que não existe religião que não tenha ou defenda um mínimo de corpo moral, escrito ou consuetudinário.
Assim, o papel da religião não é condenar o homossexual, mas recebê-lo com amor, embora discorde de sua conduta.
Outra coisa a se levar em conta é que, num país livre, democrático e laico, qualquer um pode defender seus pontos de vistas religiosos, e é arvorando-se nesse princípio da separação entre o Estado e a religião que têm surgido por aí inúmeras igrejas voltadas para as pessoas homossexuais.
Mais uma vez, os mesmos princípios podem ser aplicados aos dois lados dos contendores.

Não é possível, porém, deixar os textos que criminalizam a homofobia religiosa como estão e abandonar aos critérios do juiz verificar se, no que foi dito, pregado, ensinado ou defendido pelos pregadores religiosos, houve o animus delinquendi, hostilis, infrigiendi, laedendi, nocendi, etc., pois isso seria tão subjetivo ao ponto de trazer mais prejuízos do que soluções, tanto para uma parte, quanto para outra.
Creio que o que se pode e deve fazer é inserir no texto legal dispositivo que explicite que não caracteriza o crime a simples desaprovação da conduta, feita dentro dos limites filosóficos e/ou religiosos, como mera expressão de convicções pessoais que não incluam ofensas pessoais ou injúrias dirigidas à pessoa.
Ao que todos sabem, a eutanásia significa, dentro do nosso corpo legal, crime de homicídio, mas não é crime que um jurista ou médico defenda a sua aplicação. O mesmo se pode dizer de um artigo científico ou mesmo de um discurso num palanque político defendendo a descriminalização do uso de drogas. Nesses casos, prevalece o princípio da liberdade de expressão frente à tentativa de enquadrar o comportamento no típico crime de apologia de crime ou criminoso.
É que o escopo do direito é a paz, a paz social, a garantia das liberdades individuais e do respeito à dignidade humana.


Do Princípio da Igualdade
Os que argumentam contra a lei dos crimes de homofobia dizem que, com a sua aprovação, estar-se-ia ofendendo o princípio da igualdade.
Essa questão também tem dois lados.
Realmente, criando-se uma redoma para os homossexuais, colocando-os acima dos cidadãos comuns, imunes à critica, cria-se uma casta privilegiada, a despeito de uma maioria que opina diferente. A questão aqui é de opinião, e não é por aí que deve ser conduzida. Ninguém ou nenhuma conduta está acima da crítica ou da possibilidade de crítica.

Por outro lado, o Estado não pode permitir que milhares ou milhões de seus cidadãos continuem sendo agredidos, verbal e fisicamente, muitas vezes até com a morte, simplesmente devido à sua opção sexual.
É dever do Estado protegê-los e, desse ponto de vista, se há discriminação, abuso, violência e atos afins, esse grupo social encontra-se fragilizado e, para corrigir isso, a exemplo do que ocorreu com a lei Maria da Penha, há que ser criado dispositivos legais que favoreçam o tratamento igualitário.
Desse ponto de vista, a justiça se faz pela proteção maior aos desiguais e a lei, ao invés de estabelecer a desigualdade, torna possível a igualdade.
Ou seja, a lei não cria desigualdade nem fere o princípio da igualdade, antes estabelece-o.

E o nó reside em que, diferente da agressão física e/ou verbal à mulher, por exemplo, trata-se, como dito antes, a discordância com práticas ou comportamento homossexual é uma questão de opinião. Nas agressões às mulheres, não há injúrias ou ofensas destinadas à sua essência como ser humano do sexo feminino.
Ninguém injuria uma mulher dizendo: sua mulher! Mas ofende dizendo: sua vagabunda! Ninguém – a não ser alguns homossexuais homens – zomba da condição de mulher, da essência feminina pela essência feminina.
Aqui voltamos ao que foi abordado no item anterior.
Uma maior precisão no texto legal pode estabelecer, de maneira clara e objetiva, o que é agressão verbal, injúria, difamação, etc., em contrapartida à simples expressão de opinião.
E já que estamos na seara comum entre o direito, a moral e a religião, vou lançar mão de um texto bíblico que, ao meu ver, aplica-se perfeitamente ao caso.
É um texto que se encontra na epístola de Judas, irmão de Jesus, nos versículos 8 e 9, e diz o seguinte:
Bíblia Sagrada, Epístola de São Judas
8 Contudo, semelhantemente também estes falsos mestres, sonhando, contaminam a sua carne, rejeitam toda autoridade e blasfemam das dignidades.
9 Mas quando o arcanjo Miguel, discutindo com o Diabo, disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: O Senhor te repreenda.
A história a que se refere o apóstolo é a seguinte: Miguel discutiu com Lúcifer a respeito do corpo de Moisés, mas nessa discussão, o arcanjo Miguel não proferiu injúrias contra o diabo; simplesmente o repreendeu. Ou seja, nem mesmo o diabo deve ser injuriado ou desrespeitado, do ponto de vista bíblico.

Então, expressar essa ou aquela ideia ou opinião sobre determinado assunto, tem que ser feito de maneira respeitosa para com quem expressa opinião diversa.
Parafraseando Voltaire: não concordo sequer com uma só palavra que dizes, mas irei até o fim defendendo o teu direito de expressá-las.
Deixando claro que não estou comparando as praticas sexuais com demonismo ou satanismo, nem estou chamando os homossexuais de demônios – risco que se corre ao tratar de assuntos como este, devido ao acirramento dos ânimos e ao “politicamente correto” -, aponto que princípio implícito aqui é o seguinte: você pode expressar as suas ideias sem ofender, desrespeitar ou injuriar as pessoas ou práticas que você condena. Você tem todo o direito de opinar sem que isso signifique necessariamente ofensa ou desrespeito à pessoa.

É o mesmo princípio aplicado à liberdade de imprensa.
Em um Estado Democrático de Direito, eu posso criticar, no jornal, revista, rádio ou televisão, ou denunciar, até mesmo o presidente da república, sem ofender-lhe a dignidade, pois o animus caluniandi, difamandi ou injuriandi, não está presente.
Mas eu não posso simplesmente xingar nem mesmo o mais humilde cidadão do Estado sem incorrer nos chamados crimes contra a honra, tipificados nos art. 138, 139 3 140 do Código Penal.
No meu entendimento, mesmo correndo o risco de ser estigmatizado como um simplório expressando pensamentos simplistas, o simples acréscimo de dispositivo esclarecendo, a exemplo do que ocorre no dispositivo do art. 142 do Código Penal, que excluem certas condutas da tipicidade dos crimes de injúria e difamação.
No próprio código penal há outras excludentes de ilicitude ou imputabilidade, como as constantes do art. 23. Na legislação adjetiva também: art. 65; 314; 415, III; tudo do Código de Processo Penal. Lembre-se ainda do § 2º do art. 7º, da Lei n.º 8.906/94 – Estatuto da Advocacia.
A existência desses dispositivos legais demonstra que a norma criminalizadora de condutas homofóbicas pode conviver pacificamente com a liberdade de expressão, de opinião e de religião.


Conclusão
De tudo o que acima foi expressado, a suma é que a criminalização de práticas homofóbicas estabelecida no PLC 122/Senado Federal (5.003-B/Câmara dos Deputados) pode ser corrigida de modo a harmonizar o seu conteúdo de tal modo a serem respeitados os princípio da liberdade religiosa, liberdade de expressão e liberdade de religião.
A lei é necessária tendo em vista as agressões que cidadãos que se determinam homossexuais têm direito a uma vida digna e à proteção do Estado.
Para que haja harmonia, há que se incluir na lei dispositivos, como o constante dos art. 23 e 142 do Código Penal, e § 2º, do art. 7º, do Estatuto da Advocacia, por exemplo.

terça-feira, 20 de março de 2012

SER PAI, SER MÃE E SER GAY...

Se para os homossexuais assumir sua sexualidade muitas vezes já requer um certo grau de sofrimento e dificuldade de aceitação, externa e interna, para os homossexuais que têm filhos essa situação pode ser ainda mais delicada. O diagnóstico é do psicólogo Klécius Borges, especialista em terapia afirmativa para gays e lésbicas, que conversou com o Armário X sobre os delicados conflitos que podem decorrer da verdade sobre a orientação do desejo dos pais.


DIFICULDADES

Amor e respeito

Normalmente, o principal medo enfrentado por pais e mães homossexuais é o de perder o amor e o respeito dos filhos. E de ser responsável pelo sofrimento que a informação irá infringir-lhes.


Mitos

Além desse medo, o homossexual precisa lidar com o preconceito de forma geral, e também, com alguns mitos a respeito da homossexualidade. Ainda são muito fortes as crenças de que homossexuais não podem ser bons pais e mães, que poderão influenciar a identidade sexual de seus filhos e que, no caso dos pais, são propensos à pedofilia. Há também as questões relativas à relação com os ex-cônjuges e, principalmente para as mães, os aspectos ligados aos direitos de guarda.




CONSELHOS


Educar para a diversidade

Para os pais o mais importante é que planejem da melhor maneira possível, quando e como contar. É importante que se sintam preparados intelectual e emocionalmente para as dificuldades que podem surgir. O ideal é que os filhos saibam o quanto antes. Crianças pequenas podem ser expostas à situações de um jeito natural e ter suas questões respondidas de forma sincera e aberta, de acordo com o grau de compreensão da sua idade. Um outro cuidado essencial é transmitir valores e fornecer modelos de aceitação da diversidade humana (racial, religiosa, ideológica, etc).


Preparar-se para as reações

Ao contar, é importante que os pais não o façam em tom de confissão e que estejam dispostos e preparados para responder às questões, e a lidar com as reações emocionais decorrentes. Não se deve esquecer, que o fato, do filho ou da filha, não aceitariam a novidade de imediato, não significa que não irão aceitá-la no futuro. Os pais e mães devem reafirmar que nada mudará na sua relação com os filhos, explicar porque estão contando (por amor e confiança), e se mostrar abertos à negociação sobre quem mais pode ou deve saber (isso para evitar situações de stress desnecessários) para os filhos ou de embaraço social). E, por fim, se for necessário, oferecer algum tipo de ajuda profissional para que os filhos possam aprender a lidar melhor com a situação.


Confiança nos filhos

Para os filhos, o mais importante é tentar compreender que o fato do pai ou da mãe serem homossexuais não muda em absolutamente nada o amor que eles sentem por seus filhos. Contar é, sobretudo, uma forma de demonstração de amor e de confiança neles. Devem também se sentir à vontade para perguntar o que quiser e a pedir ajuda profissional para que possam aprender a lidar melhor com os conflitos decorrentes da nova situação.


Respeito à individualidade

Há famílias que conseguem lidar melhor com a questão. Geralmente são famílias criadas com valores morais e éticos mais liberais, onde a individualidade é melhor respeitada. Costumam também cultivar o diálogo entre seus membros e estimular a expressão sincera de sentimentos. Essas famílias, embora sofram com a situação, tendem a lidar melhor com os conflitos e, a médio e longo prazo, resolvê-lo de forma satisfatória.

O ARMÁRIO HÉTERO

Não há dúvidas de que a sexualidade permeia boa parte da vida humana. Está presente nas conversas de bar, na literatura, nas propagandas, nas revistas, nas piadas, na moda e até nos púlpitos e altares, uma vez que a "moral sexual" é uma das preocupações hodiernas mais gritantes no entender de católicos, evangélicos e membros de um sem-número de outras religiões.

Apesar disso, freqüentemente nós, homossexuais, somos indagados sobre a necessidade que temos de assumir essa mesma sexualidade "todo o tempo". Muitos héteros e não-assumidos convictos (não me refiro, evidentemente, àqueles que estão em crise ou que não se assumem por motivos superiores à sua vontade) costumam dizer que "nossa vida privada não interessa a ninguém". É comum o argumento de que "nenhum homem (sic) precisa chegar e dizer sempre que é hétero. Por que um gay precisa dizer o tempo todo?".

Na verdade, essa discussão revela um profundo desconhecimento dos discursos sobre a sexualidade – discursos falados, escritos e imagéticos. Certamente a heterossexualidade, em nossa cultura, é reafirmada e ratificada o tempo todo: cada vez que uma propaganda de cerveja mostra o líqüido acompanhado por lindas mulheres e homens embasbacados por elas; cada vez que um casal homem-mulher tasca um beijo na rua sem ser incomodado; em cada capa das centenas de revistas que temos, das de fofocas às de noivas, passando pelas masculinas ao estilo da Playboy; cada vez que o programa do Luciano Huck faz o concurso de rainha do Carnaval ou apresenta quadros como "Namoro às escuras"; cada vez que uma moça apresenta o namorado à família e cada vez que uma igreja realiza uma cerimônia de casamento.

Em todos esses momentos e em centenas de outros que poderíamos enumerar, a heterossexualidade, tida como modelo social, é continuamente afirmada: nem tudo o que dizemos, dizemos por palavras. Não admira, portanto, que os héteros não precisem verbalizar que são héteros: a abundância de símbolos, modelos e sinais que dizem isso é tamanha que a "declaração formal" se torna absolutamente desnecessária.

Costumo afirmar, exatamente por isso, que a orientação sexual, ao menos a heterossexual, quase nunca é uma questão privada, mas pública: ver um homem e uma mulher na rua, salvo algumas exceções, como no caso de visualizarmos homens efeminados, naturalmente evoca para as pessoas a idéia de que o "homem gosta de mulher", e vice-versa.

Esse automatismo somente é quebrado quando o gay ou a lésbica se declara assim. E, afinal, o que é estar no armário, senão apresentar-se publicamente como heterossexual, fazendo uso do ambiente que essa abundância de símbolos propicia? Ninguém poderia permanecer no armário, pelo menos este armário que conhecemos, se não existisse tal automatismo.

É muito interessante recorrer a uma metáfora pela qual costumo ilustrar essa situação: nossa sociedade é constituída como uma loja de sapatos que vende apenas um número, o 40, por exemplo. Quem sentirá necessidade de ir até o vendedor e reclamar que os sapatos estão apertados e a loja tem de começar a vender outros números: quem calça 40 ou quem calça 42?

A resposta é óbvia, e, nessa metáfora, somos nós, homossexuais (ou bissexuais), os que calçamos 42. Os héteros, que calçam 40, estão confortáveis: não somente porque os sapatos lhes servem, mas também porque a propaganda da loja, os cartazes, o anúncio da revista e os vendedores já estão preparados para atendê-los com toda a variedade de modelos que possuem.

Os héteros não precisam "declarar" que são héteros, porque calçar os sapatos já é o bastante – a loja apenas espera que eles sirvam. Entretanto, é evidente que a propaganda, o anúncio, os vendedores ressaltam continuamente que a loja vende o número 40. Logo, pensar que os héteros não afirmam sua sexualidade é ser, no mínimo, inocente.

É interessante, inclusive, ver como o raciocínio que aqui apresento é capenga. Um homem hétero apresentar uma mulher como sua namorada é tido como absolutamente normal e corrente. Por que um homem gay apresentar outro homem como seu namorado é "expor a privacidade desnecessariamente, porque ninguém precisa saber o que fazemos entre quatro paredes"?

Os dois pesos e as duas medidas ficam claros, sendo que, em ambos os casos, existe invariavelmente uma afirmação da identidade e da orientação sexual que vem no pacote. A diferença é apenas que a primeira é aceita e a segunda não. Nesse aspecto, portanto, o que se esconde por trás do discurso da "privacidade homo" é simplesmente o preconceito (ou o autopreconceito), a dificuldade ou impossibilidade de se reconhecer a homossexualidade como legítima.

Alias, não legitimar a homossexualidade é também uma forma curiosa de afirmação hétero e, no que diz respeito à ala masculina, está relacionada a algo que denomino negação do corpo do homem. Defendo o conceito de que a masculinidade heterossexual é fortemente calcada nessa negação. A maneira com que ainda se educam os rapazes por aí leva o homem adulto a desprezar uma relação mais íntima e mais próxima com seu corpo e com os corpos de seus semelhantes – e isso implica em um desprezo da homossexualidade como ratificação da condição heterossexual.

Vamos tornar essas ligações mais claras: no "meio" heterossexual masculino, qualquer coisa é motivo para se evocar, de forma depreciativa, a homossexualidade (ou, mais corretamente, o "homossexualismo", posto que o foco nem sempre é a sexualidade global, mas tão-somente o ato genital entre dois homens). Homens héteros muitas vezes pensam mais em "veados" do que os próprios gays. Uma olhada mais "demorada", um movimento mais "suspeito", uma declaração "mal colocada" e pronto: lá está o pessoal chamando o outro de "veado" ou fazendo alusão a nádegas e similares.

Uma das vantagens de ser homem, gay e assumido é exatamente ficar imune a essas brincadeiras. Algumas são mesmo engraçadas, e é claro que até nós, gays, brincamos com o que diz respeito ao sexo e à homossexualidade - e amamos falar de homem. A relação, entretanto, é diferente, a começar pela intensidade. Ademais, em nosso caso, brincamos com algo que nos é próprio, o que nos nivela e reforça identidades e práticas, na medida em que todos fazem de fato aquilo que brincam fazer (ou a maior parte de tudo aquilo).

No caso dos héteros, porém, a chave não é afirmativa, mas negativa. Brinca-se chamando o outro de "veado", mas espera-se que este outro negue. Quanto mais bravo ele ficar (coisa que não existe propriamente entre nós, gays), mais intensa e "gostosa" torna-se a brincadeira. E por que esse tipo de coisa se relaciona a uma negação do corpo? Porque, social e culturalmente, homens héteros, no aspecto mais geral, não podem se tocar, não podem achar o outro bonito, não podem se abraçar intensamente e nem demonstrar carinho com mais fervor entre si - exceto em certas "ilhas", como, por exemplo, o estádio de futebol.

De resto, tudo é jogado no "lago proibido" do "homossexualismo" – e quem se atreve a questionar paga o preço, ainda que, felizmente, a modernidade tenha trazido por aí um número cada vez maior de homens héteros corajosos, que, não raramente, integram o "S" da sigla GLS. De qualquer forma, em muitos casos, substitui-se a falta de relação mais íntima com o corpo masculino pelas brincadeiras. Elas espelham não apenas uma carga de desprezo pelo "homossexualismo" que uma outra relação poderia desfazer, mas também uma reafirmação da heterossexualidade. Mais do que isso, elas também evidenciam um policiamento: homens héteros, salvo os corajosos a que me referi, passam boa parte do tempo provando e/ou dizendo para os outros que não são gays, ainda que tudo seja mascarado por "inocentes" piadinhas.

Dito isso, considero que eu, por meu temperamento, teria muita dificuldade, nesse aspecto, em ser hétero. Considero uma vantagem ser gay no sentido de poder beijar e abraçar meus amigos gays, sentar-me junto deles, deitar em seus colos. Isso, por si só, nada tem de interesse sexual imediato, pois nós, gays e assumidos, também o fazemos com as meninas. A diferença é que podemos aproveitar esse contato com ambos os corpos, o que nos ajuda a ter uma relação mais saudável e até mais plena com nossos próprios corpos.

Nesse ponto, devo esclarecer que este artigo não é uma apologia aos gays: claro que alguns (ou muitos?) de nós não têm esse tipo de consciência, e, além disso, percebo que o mesmo fenômeno se sucede às mulheres, sejam héteros, sejam lésbicas. Apesar de a educação dispensada a elas ter muito de ridícula (que o digam as feministas), nesse ponto tem um bom efeito. Mulheres fazem coisas incríveis juntas: vão ao banheiro em dupla, mostram novas estrias e celulites umas às outras, olham-se quando nuas, tocam-se, beijam-se e até arriscam-se a sair de mãos dadas, mesmo que sejam apenas boas amigas e heterossexuais. Não residiria justamente aí parte da "sensibilidade feminina"? No caso delas, fica ainda mais evidente que a questão que proponho não passa pelo contato com o objeto de desejo imediato.

Em um vestiário masculino, por sua vez, quem não olhar pro chão ou dispensar mais de alguns poucos segundos ao corpo do outro corre riscos. Se as mulheres mostram estrias novas no peito para suas amigas, um homem hétero é praticamente incapaz de mostrar o pênis para um amigo, a fim de que ele opine sobre uma ferida, por exemplo. Se as mulheres não vêem razão para se diminuírem depois de examinadas por um ginecologista, idas de um homem hétero a um urologista já despertam comentários jocosos – e que dirá um exame de toque retal, tão invasivo quanto um papanicolau, mas bem mais "atacado" do que este último?

Talvez por isso seja possível dizer que, com certa margem de segurança e descontando aqueles que carecem de informações básicas, mulheres de qualquer orientação e gays, em média, cuidam mais de seu corpo e têm maior conhecimento sobre ele do que os homens héteros, salvo algumas maravilhosas exceções.

É uma pena que esses homens, presos em sua própria masculinidade e tão seguros de si na ponta da pirâmide sócio-sexual, não percebam os males que a negação de seu próprio corpo lhes causa. As brincadeiras porque um gay elogiou a beleza de um deles ou porque um amigo deu uma reboladinha "supeita" são apenas um sintoma. Sinal de que algo, no fundo, não vai bem na sexualidade - mesmo que não se perceba. Talvez seja correto, afinal, dizer que os homens héteros também precisam romper com esse estado de coisas. Precisam sair do armário.

Por João Marinho

O PAPEL DO EDUCADOR SOCIAL CONTRA AS PRÁTICAS HOMOFÓBICAS

As preocupações com o tema desta pesquisa, homossexualidade na escola, surgiram da observação do dia a dia de alunos com trejeitos homossexuais que muitas vezes, acabam sendo discriminado dentro da sala de aula, não somente pelos seus colegas, mas também pelos professores. Um tema tão delicado e difícil de ser trabalhado nos remete a idéia de refletirmos sobre o sentido em que a pratica pedagógica deve intervir, para uma relação saudável.

O dia a dia em sala de aula exige um processo de interação entre educadores e alunos. Interação esta que se torna mais rica, quando os educadores conhecem os alunos, sabem como vivem, suas lógicas de aprendizagens, como se relacionam com os saberes e valores instituídos e difundidos pela Escola, e como merecem ser respeitados nesse espaço (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002).

Sabemos que na escola a diversidade é constante seja ela dada pela etnia, religião, origem regional, orientação sexual, dentre outras. Diversos professores sentem resistência em trabalhar a diversidade sexual em sala de aula. Até mesmo já criam uma visão um pouco negativista que se o aluno é homossexual ele já trás consigo uma definição de comportamento.

O fato que torna interessante o estudo dos jovens homossexuais na escola é a grande dificuldade de convivência e socialização que o mesmo terá. O jovem homossexual precisa guardar sua identidade, pois caso a expresse, será rotulado, e poderá se tornar alvo de bullying homofóbico, tanto por parte dos colegas quanto dos professores.

É dever de a escola reverter este quadro. O Ministério da Educação, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (1997), oferece às escolas a possibilidade de trabalhar orientação sexual com seus alunos, incluindo conceitos básicos e informações sobre homossexualidade aos estudantes de todas as faixas de idade.

Alves (2006) diz que a educação é a melhor forma para combater o preconceito e a discriminação, o que acontece quando a própria escola não sabe como lidar com este tema? A escola avançou muito nas últimas décadas na discussão de temas como discriminação racial, gravidez na adolescência e respeito aos portadores do vírus da AIDS. Porém, quando se trata de homossexualidade na escola, fica evidente que educadores, orientadores e a família não estão preparados para lidar com o tema.

Quando falamos em homossexualidade e educação, devemos almejar que é um trabalho que deve ser desenvolvido urgentemente nas escolas brasileiras. Uma pesquisa da ONU - Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO sobre a juventude e a sexualidade envolvendo alunos do ensino fundamental, pais, comunidade e corpo docente. E a mesma revela que, professores não apenas fica calado frente a atos de discriminação e preconceito, como também muitas vezes colaboram ativamente na produção desta violência contra jovens homossexuais.

Sobre a percepção e visão do corpo docente quanto aos valores sociais, os mesmos tendem a defender uma conduta onde segue os padrões sociais, do que seria politicamente correto com comportamentos consideráveis normais pela sociedade. Embora muitos docentes concordem com a atualização de temas contemporâneos no currículo escolar, como por exemplo, prevenção às drogas, saúde, gravidez na adolescência, muitos destes docentes continuam a tratar a homossexualidade como doença, deformação moral ou até mesmo como perversão sexual (Abramovay, 2006, ONU).

Instituições escolares são locais de ampliação das relações sociais, é sem dúvidas é o local onde o jovem constrói a sua auto-imagem, a grande questão é se esta imagem pode construir um ambiente tolerante para homossexuais?

A nossa pesquisa apenas se embasa no questionamento, se as escolas realmente concentram um espaço de socialização, não somente para os jovens heterossexuais, mas também para jovens homossexuais, se elas estão capacitadas ou capacitando-se para uma nova sociedade, discutindo e promovendo a aprendizagem e a convivência dos jovens e que conseqüências o Bullying sofrido na escola poderá causar no indivíduo na vida adulta.

Frente a este questionamento e compartilhamentos nossa pesquisa procurou discutir a relação entre educação e homossexualidade. Foram feitos algumas entrevistas com adolescentes homossexuais dos doze aos dezoito anos. As entrevistas aconteceram no ponto de encontro dos adolescentes na praça Trianon em São Paulo.

Para encaminhar a discussão proposta, delineou-se a seguir o campo teórico metodológico que dá suporte ao estudo e apresentação das análises das entrevistas (em anexo).

Ao falarmos de Educação Sexual sabemos que não é nenhuma novidade; camisinha, gravidez na adolescência, DST´s. Porém sobre a sexualidade na escola, os PCNs (1997) revelam que é apenas nos meados dos anos oitenta, que a demanda por trabalhos começa a preocupar os educadores, em virtude de grandes números de gravidez precoce e do aparecimento da AIDS entre os jovens, já que nos anos oitenta o número de portadores do vírus cresceu muito.

Em 1997 o Ministério da Educação propõe os PCNs para o Ensino Fundamental, onde padronizaria o ensino em todo o território nacional. Nesta nova proposta curricular incluiria com um dos temas transversais a Orientação Sexual que deverá ser abordada pelos professores de 1º ao 5º ano, permeando as diversas disciplinas. Em 1998, esta mesma proposta se amplia abordando também os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio.

Segundo os PCNs (1997) Educação Sexual, é um conjunto de informações desenvolvidas de forma assistemática sobre a sexualidade. Um processo não intencional que envolve as ações exercidas do individuo no dia a dia. Surge na família e também em grupos de convivência do jovem os padrões de moralidade de uma sociedade existente.

É diferente de Orientação Sexual, pois Orientação sexual é um processo de intervenção sistematizado, intencional e planejado, onde promovem o escapo de acolhimento e reflexão das dúvidas, atitudes, valores, posturas, informações, contribuindo para uma vida sexual de forma responsável e prazerosa.

Em todas as escolas, os conteúdos sobre sexualidade são sempre elaborados baseados na heterossexualidade, tais como função do corpo feminino e masculino, gestação, fecundação e partos. Frente a esta maneira de trabalhar apenas o que seria normal e natural é o que compõem o currículo escolar.

Educação sexual, atualmente na escola trabalha normas e iguala todos os indivíduos em torno da heterossexualidade naturalizada. Ao adicionar o tema sexualidade no currículo escolar, as escolas reduzem todas as dimensões múltiplas da sexualidade em apenas um único aspecto e gênero, tornado o conteúdo possível de ser trabalhando em diversas disciplinas. O trabalho sugerido pelos PCNs implica a compreensão de que os conteúdos, concepções e objetivos propostos como Orientação Sexual deverão ser contemplados pelas diversas áreas do conhecimento, passear por diversas disciplinas.

A homossexualidade é decorrente das articulações citadas à cima ou até mesmo fatores psicológicos, com destaque para a formação de identidade resultando no desejo de se vincular emocional e sexualmente a alguém do mesmo sexo. (Chesnais in Abramovay, 2004).

Não existe um consenso entre cientistas pesquisadores, tais como sociólogos, médicos, psicólogos e psicanalistas sobre as origens e causas da homossexualidade e a bissexualidade, embora sempre existam pesquisas tentando buscar uma resposta para esta origem. Sabemos que existe um preconceito muito grande contra homossexuais, e por meio de pesquisas sobre as possíveis causas, talvez encontre uma resposta para amenizar a tolerância contra homossexuais.

Sabendo que existem jovens homossexuais, não podemos deixar este tema do lado de fora da escola. Ele existe e está presente na sala de aula de uma maneira ou de outro. Consideraremos homossexuais toda e qualquer pessoa que sinta atração física e sexual por alguém do mesmo sexo.

Segundo Alves (2006) percebe-se, em conversas com os jovens, a sexualidade é o tema principal para eles, provocar um debate ou uma discussão é participação presente de todo o grupo. Para os jovens adolescentes a sexualidade esta ligada à afetividade, quanto com as relações sociais e a sociabilidade. A juventude é fase das descobertas e experimentação sexual. O que muitas vezes vai definir a identidade sexual do jovem.

Uma pesquisa de uma revista para adolescentes revela que na cidade de São Paulo muitos meninos beijam outros meninos na boca apenas por "modinha", são os chamados de BI-CURIOUS. Os meninos querem experimentar, na opinião das meninas é uma coisa meiga ver dois garotos se beijando, porém estes garotos não querem ser rotulados como homossexuais. Segundo a pesquisa, estes jovens querem apenas experimentar, uma característica da adolescência. O que pode caracterizar na vida adulta a orientação destes jovens como homossexuais ou heterossexuais (Kobayashi, 2006).


"Eu não sou gay. Mas não tem nada de mais em beijar outro cara. Minha única condição é que não dá para fazer isso em qualquer lugar. A maioria dos meus amigos não sabe disso, eles iriam zoar. Não entendem que a gente quer experimentar. E, se é para experimentar, ninguém anda muito a fim de dizer que faz". (Marcelo, 15 - São Paulo em entrevista à Capricho, sessão comportamento 16/11/2007).

Castro, Abramovay e Silva (op. cit. p. 281), também se referem a relatos de meninos que são perturbados por serem delicados já que não apresentam a conduta que deles se espera de acordo com os padrões machistas. Estes são chamados através de termos que carregam muito menos uma referência a práticas sexuais não-convencionais, mas que serve para ferir moralmente o outro, entre eles: "boiola", "bicha", "viado", "travesti" e "gay". Além do palpável decréscimo na auto-estima dos estudantes, as autoras mencionam relatos de abandono dos estudos por parte daqueles que não conseguiram suportar o fardo moral da desqualificação ininterrupta. Na esmagadora maioria das vezes, dizem as autoras, direção escolar e corpo docente se mantiveram numa cômoda posição de indiferença, não intervindo de maneira clara para combater o assédio, as chacotas e as agressões físicas.

A adolescência é uma época cheia de conflitos e quando falamos em escolhas amorosas diferentes dos padrões heterossexuais, torna-se um período critico recheada de conflitos.

Os jovens estão mais envolvidos na violência, caracterizada como Bulliyng Homofônico (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002), na visão dos meninos e meninas sobre o que é violência são muito parecidos. Na pesquisa de 2002 "Juventudes e sexualidade", quando se pediu para os jovens identificar as cinco mais graves violências, a agressão à homossexuais é classificada pelos jovens como a terceira violência mais grave. Porém, nesta mesma pesquisa revelou que a discriminação contra homossexuais é menos valorizada por rapazes do sexo masculino, o que nós remetemos um padrão masculino, um medo ao próximo, o que para eles podem ser confundido consigo mesmo.

Mary Castro e Miriam Abramovay (2003) discutem que atualmente a família sente muita dificuldade em tratar o tema homossexualidade, o dialogo se torna distante quando o assunto é sexualidade. Apesar da boa relação do jovem com a família, quando ele assume sua sexualidade, ele passa a ter dificuldades em se relacionar com seus parentes, como se ele fosse um bicho ou um individuo vindo de outro universo.

Para Castro, Abramovay e Silva (2004) quando falamos de amigos, o fato de assumir ou não a orientação sexual, para os amigos mais íntimos o jovem sente mais medo, pois poderá perder a confiança em ter escondido a sexualidade por tanto tempo, ou até mesmo perder a condição de amigo. Muitos preferem continuar a demonstrar uma condição heterossexual apenas para manter seu circulo de amizades com receio de perdê-la.

Atualmente muitos jovens são infelizes, pois não conseguem contar para os amigos e professores sobre sua orientação sexual. Muitos preferem a morte a poder se assumir, ou sair do armário como os jovens dizem.


10% dos jovens que comentem suicídio no território nacional é pelo simples fato de não poderem assumir sua opção sexual para a sociedade ou por sofrerem de bullying homofônico. A questão econômica vai influenciar diretamente o jovem a assumir sua homossexualidade, uma vez que ele é em muitas vezes dependente financeiramente dos pais. Frente a isto, muitos jovens abandonam a escola para trabalhar e terem uma renda financeira, logo podendo afirmar sua orientação sexual, ninguém vai pagar minhas contas, a vida é minha e faço dela o que eu quero. (Deco Ribeiro, 2006, pesquisa do site e-jovens sobre o suicídio na adolescência).

A família é o primeiro ambiente de socialização de um individuo, logo vem o amigo o qual o jovem encontro dificuldade em falar sobre sexualidade e homossexualidade, a escola seria o próximo ambiente de socialização e dialogo, porém nela não é diferente. Muitos professores sentem dificuldade em trabalhar com alunos abertamente homossexuais, principalmente quando estes estudantes sofrem discriminação o que prejudica o desenvolvimento cognitivo deste aluno e sua relação com o mundo, colegas e professores.


Integrar as dimensões de aprendizagem e sexualidade, proposta pelos PCNs segundo Barroso e Bruschini (1998) é um grande problema, já que as dúvidas dos adolescentes transcendem as informações conteudistas do currículo da escola, eles expressam experiências íntimas e pessoais, muitas vezes constrangendo os educadores.

A grande maioria dos jovens entrevistados em São Paulo, afirmaram que existe uma mudança de comportamento tanto por parte do corpo docente quanto por parte dos colegas de sala ao saberem a orientação sexual dos entrevistados. Segundo eles existe uma recusa por parte de todos, o que reflete nas notas e no rendimento escolar. A aprendizagem é facilitada pela associação ao afeto e ao prazer que a relação educativa pode ou deve proporcionar.

Na escola as relações entre docência e alunos têm o dever de preparar a formação integral e cultural do jovem. Ao pesquisarmos muitos dos entrevistados afirmam se comportarem iguais a jovens heterossexuais, porém, após descobrirem sua orientação sexual professores e os demais colegas mudam a maneira de tratar este jovem.

O espaço escolar não tem grande eficiência para enfrentar condições opostas ao comportamento dito como natural - heterossexual. O que leva os adolescentes homossexuais a diminuírem sua auto-estima.


Mott (2006), diz que quando a escola exige este tipo de comportamento aos adolescentes homossexuais, a escola está agindo como uma reprodutora de desigualdades. Ter uma orientação sexual não significa ser desigual, é na escola que surgem os maiores conflitos de personalidade. Ser diferente não significa ser desigual, na escola.


A sociedade se organiza em uma lógica de diferenças, quando a escola trabalha com a orientação sexual de forma desigual, ela está reproduzindo mais uma vez à idéia de que o comportamento natural "heterossexual " é o que gera relações afetivas e amorosas. (Aquino, 2006, pg. 19-30, Alternativas teóricas e praticas).

Quando a escola nega a compreensão, a tolerância e as discussões sobre homossexualidade, ela exclui o jovem homossexual, fazendo com que este jovem precise buscar território onde ele se sinta a vontade.

Esta busca por território pode ser entendida como um produto da subjetividade de indivíduos ou grupos sociais que se organizam em determinados espaços sociais, como acontece com os entrevistados na Praça Trianon em São Paulo. Logo é um espaço social onde o jovem homossexual pode viver sua identidade (Souza, 1995). A construção dos territórios é um processo dinâmico de atribuição de significados. O jovem acaba procurando territórios criados por grupos que apresentam a mesma orientação sexual.

Ribeiro (2006) chama a atenção para a maior Parada Gay do mundo, na cidade de São Paulo, aproximadamente 3 milhões de pessoas, onde podem demonstrar sua homossexualidade de forma aberta alem de ser a maior mani-festação contra a homofobia.

A exposição homossexual por tanto tempo ficou restrita apenas aos espaços privados, hoje ela ganha destaque entre meios de comunicação, como em novelas, filmes. A PARADA Gay se tornou mais que uma mega festa, mas também um grande mecanismo utilizado pelo Movimento GLBTT contra a quebra de preconceitos e estereótipos, é uma forma de propiciar o convívio social entre diferentes manifestações de sexualidade. Nota-se também nesse evento a expressiva presença de jovens, talvez por causa do colorido, da grande mistura de tipos, pois a juventude é caracterizada também pela sua alegria, pelo movimento e ímpeto natural, o que pode ser encontrado neste evento.

A escola deve ser espaço para discussão da sexualidade, pois a escola é o espaço central de expressão da sexualidade juvenil. A escola pode ter ra-mificações político-pedagógicas para a dimensão dos preconceitos existentes em nossa sociedade.


PROFESSOR DANIEL STEVE

sexta-feira, 9 de março de 2012

O QUE É A VERDADE

No início da história da Filosofia, os filósofos começaram a se perguntar sobre as mais diversas questões que permeiam o pensamento humano. Uma delas é sobre a verdade. O que é a Verdade?
Platão inaugura seu pensamento sobre a verdade afirmando: “Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso aquele que as diz como não são”. É a partir daí que começou a se formar a problemática em torno da verdade.
No dicionário Aurélio encontra-se a seguinte definição de verdade: “Conformidade com o real”. Talvez merecesse um comentário mais amplo, a afirmação acima de Platão, mas partindo do conceito dado pelo dicionário pode-se chegar as seguintes conclusões: Não existe uma verdade cujo sujeito possa ser o seu detentor; a Filosofia chegou a distinguir cinco conceitos fundamentais da verdade: a verdade como correspondência, como revelação, como conformidade a uma regra, como coerência e como utilidade. Falar-se-á um pouco de cada uma.
A verdade como correspondência diz respeito à afirmação platônica que foi citado no inicio deste texto. É a verdade que garante a realidade, ou seja, o objeto falado é apresentado como ele é. Aristóteles diz que: “Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é verdade”. Essa definição de verdade é a mais antiga e divulgada.
A concepção de verdade, sob o aspecto da revelação, surge num tempo em que empirismo, metafísica e teologia apresentaram novas formas de se entender a realidade. Trata-se de uma verdade que sob a luz empirista se revelou ao homem por meio das sensações, e sob a perspectiva metafísica ou teológica mostrou o verdadeiro por meio de um Ser supremo, Deus, que evidencia a essência das coisas.
A conformidade apresenta uma verdade que se adapta a uma regra ou um conceito. E esta noção de conformidade foi usada pela primeira vez por Platão: “... tudo o que me parece de acordo com este, considero verdadeiro,...” e retornando a história, Santo Agostinho afirma: “existe, sobre a nossa mente, uma lei que se chama verdade”. Em suma, a verdade, no sentido da conformidade, deve-se adequar a uma regra ou conceito.
Já na metade do século XIX, surgiu no movimento idealista inglês, a noção de verdade como coerência. Essa idéia de coerência foi difundida pelo filósofo Bradley. Ele critica o mundo da experiência humana partindo da idéia de que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, isso o fez aceitar que “a verdade é coerência perfeita”.
Por fim, achou-se o pressuposto de verdade como utilidade, formulada primeiramente por Nietzsche: “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. A preocupação é que a verdade como utilidade seja algo que faça bem toda a humanidade. O que não é de práxis para a conservação do bem, podemos dizer que é verdade?
Toda essa investigação sobre a verdade limita muito esse tema. A verdade possui inúmeros significados, dependendo da pessoa que a defina. Ela continuará sendo uma das questões mais abordadas nestes últimos tempos.
Estamos em um mundo de grandes transformações. Muitas ideologias são nos apresentadas como verdades inquebrantáveis. Somos forçados a acreditar na mídia, na política e na manifestação religiosa. Isso acontece de uma maneira inconsciente.
O que nos libertará de toda essa prisão é nossa atitude como sujeitos formadores de consciência crítica. A questão é ir afundo sobre aquilo que nos é apresentado. Fugir do senso comum e criar opiniões próprias. Depende de você encarar isso como verdade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Quem é o meu Próximo

Quem é o nosso próximo? A quem realmente devemos nos importar e demonstrar o nosso amor cristão?

Jesus quando aqui andou contou uma parábola muito impressionante, para mostrar quem é o próximo.

Esta parábola está relatada em Lucas 10:25-35. Nós conhecemos bem a história: Um homem viajava de Jerusalém para Jericó; ou poderia ser, viajava de São Paulo para Santos, ou Rio de Janeiro à Nova Friburgo; no caminho ele foi assaltado por marginais que além de roubarem todos seus pertences, o maltrataram cruelmente, abandonando-o muito ferido, quase à morte.

Jesus contou esta história ao um doutor, "Intérprete da Lei" (V.25) a quem demonstrava que o único caminho para a vida eterna era o: "Amar a Deus em primeiro lugar e amar o próximo como a si mesmo. A isto o doutor perguntou, "E quem é o meu próximo?"

Na história do Bom Samaritano, os indivíduos não são idendificados pelos nomes, mas caracterizados pelas funções e ações. O homem assaltado é um anônimo: talvez um viajante, um desempregado em busca de trabalho; quem sabe um bóia-fria.

Enfim, é alguém carente, desprotegido, marginalizado, sem amigos, sem dinheiro, sem família - sem ninguém - a sós no mundo, como milhões de outros por aí. Lá está ele: jogado à beira da estrada, caído na sarjeta abandonado.

Entram em cena, então aqueles que tinham a solução do problemas às mãos: Um sacerdote e um levita. Diz a Palavra de Deus: "Casualmente descia um Sacerdote por aquele mesmo caminho." (V.31)

Você perguntaria: Será que o sacerdote parou para ajudá-lo? Não! A Bíblia fala que numa atitude de completo "desamor" o sacerdote passou de lado, ou seja tentou ignorar aquela situação; procurou não envolver-se nem se incomodar com o pobre miserável.

Quem sabe o sacerdote havia trabalhado todo fim de semana; estava cansado e saudoso do lar. Queria ter o seu merecido repouso e ficar me paz, às sós. E afinal de contas o que tinha acontecido com aquele estranho não era da sua conta.

A história continua: "Semelhantemente um levita descia por aquele mesmo caminho, e vendo-o também passou de largo. (v.32)

O sacerdote nem sequer olhou para o ferido viajante. O levita, quem sabe, preocupado pois poderia ser um parente ou amigo seu, deteve-se por um instante, olhou-o, e como não o reconhecesse, passou de largo.

E lá estava o moribundo, quase a morrer. Será que ninguém se preocuparia com ele? Será que ninguém se importava? Será que ninguém tinha amor para dar?

Neste momento apareceu um estranho, um "inimigo" , ou seja um samaritano, um estrangeiro. Ora, durante cerca de 800 anos os judeus não se davam com os samaritanos, porque em 722, Salmanezer ou Sargão II, reis da Assíria tomara Samaria e substituíram seus habitantes por bailônios e sírios, que trouxeram suas tradições, crenças religiosas contrárias às dos judeus.

Os samaritanos eram inimigos, para os judeus , um foco purulento incrustado no seu território. Eram considerados como cães.

Mas, vejamos: lá estava o moribundo; ele sentiu que alguém parou, desceu da montaria e se aproximou dele. Quem seria? Oh, impossível! Era um samaritano!

E o samaritano compadeceu-se dele, curou-lhe as feridas aplicando óleo e vinho; e colocou-o em cima do seu próprio animal e o levou para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: cuida deste e, se alguma coisa gastares a mais, e to indenizarei quando voltar.

Finalmente alguém viu o drama do homem abandonado; alguém sentiu por ele; alguém se envolveu, alguém ajudou. Por estranho que pareça, quem ajudou era um ser rejeitado, um inimigo, um cão.

Ao Jesus terminar o relato perguntou ao doutor da lei: "Qual deste três parece ter sido o próximo do homem. . ." V.36. O homem respondeu sem titubiar, "Aquele que usou de misericórdia para com ele." V.37 sua resposta estava correta.

Aqui estão algumas verdades para nós:

1. Muitos se dizem religiosos, cristãos, mas não desejam nenhum comprometimento com os probelams dos outros. Isto é negação de religião, isto é negar a Cristo.

2. Muitos julgam que devam ajudar aos seus familiares, seus parentes, colegas e amigos, e nada mais. O seu círculo de amor é muito limitado, sua atuação muito restrita.

3. Na concepção cristã, o nosso próximo não está limitado à nossa família, nossas amizades, nossa raça. Nosso próximo é todo aquele que necessita de auxílio e quem podemos ajudar.

4. A parábola nos ensina que a verdadeira religião é a prática do amor. É crer fazendo. É viver o que crê, e fazer o bem que se deve fazer. Tiago diz: "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações." Tiago 1:.27

A Bíblia nos diz: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de todas as tuas forças e todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo como a ti mesmo." Lucas 10:27

Quando Jesus terminou de contar esta história do bom Samaritano, disse para o doutor da lei: "Vai e procede tu de igual modo, e mais, . . . faze isto e viverás." Lucas 10:37-38.

Nesta parábola contada por Jesus, se você fosse um dos integrantes, quem seria você? O sacerdote? O levita? Ou o bom samaritano?

Agora olhe ao seu redor: Veja quantos necessitados, abandonados e carentes estão à beira da estrada, destruídos pelo pecado assaltados pelo mal.

Veja quanta ruína e tragédia! então reaja: Ajude alguém hoje! faça o bem a alguém; diga uma palavra de conforto; levante um caído, anime-o, ponha seu amor em prática.

Pr. Stina