terça-feira, 20 de março de 2012

O PAPEL DO EDUCADOR SOCIAL CONTRA AS PRÁTICAS HOMOFÓBICAS

As preocupações com o tema desta pesquisa, homossexualidade na escola, surgiram da observação do dia a dia de alunos com trejeitos homossexuais que muitas vezes, acabam sendo discriminado dentro da sala de aula, não somente pelos seus colegas, mas também pelos professores. Um tema tão delicado e difícil de ser trabalhado nos remete a idéia de refletirmos sobre o sentido em que a pratica pedagógica deve intervir, para uma relação saudável.

O dia a dia em sala de aula exige um processo de interação entre educadores e alunos. Interação esta que se torna mais rica, quando os educadores conhecem os alunos, sabem como vivem, suas lógicas de aprendizagens, como se relacionam com os saberes e valores instituídos e difundidos pela Escola, e como merecem ser respeitados nesse espaço (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002).

Sabemos que na escola a diversidade é constante seja ela dada pela etnia, religião, origem regional, orientação sexual, dentre outras. Diversos professores sentem resistência em trabalhar a diversidade sexual em sala de aula. Até mesmo já criam uma visão um pouco negativista que se o aluno é homossexual ele já trás consigo uma definição de comportamento.

O fato que torna interessante o estudo dos jovens homossexuais na escola é a grande dificuldade de convivência e socialização que o mesmo terá. O jovem homossexual precisa guardar sua identidade, pois caso a expresse, será rotulado, e poderá se tornar alvo de bullying homofóbico, tanto por parte dos colegas quanto dos professores.

É dever de a escola reverter este quadro. O Ministério da Educação, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (1997), oferece às escolas a possibilidade de trabalhar orientação sexual com seus alunos, incluindo conceitos básicos e informações sobre homossexualidade aos estudantes de todas as faixas de idade.

Alves (2006) diz que a educação é a melhor forma para combater o preconceito e a discriminação, o que acontece quando a própria escola não sabe como lidar com este tema? A escola avançou muito nas últimas décadas na discussão de temas como discriminação racial, gravidez na adolescência e respeito aos portadores do vírus da AIDS. Porém, quando se trata de homossexualidade na escola, fica evidente que educadores, orientadores e a família não estão preparados para lidar com o tema.

Quando falamos em homossexualidade e educação, devemos almejar que é um trabalho que deve ser desenvolvido urgentemente nas escolas brasileiras. Uma pesquisa da ONU - Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO sobre a juventude e a sexualidade envolvendo alunos do ensino fundamental, pais, comunidade e corpo docente. E a mesma revela que, professores não apenas fica calado frente a atos de discriminação e preconceito, como também muitas vezes colaboram ativamente na produção desta violência contra jovens homossexuais.

Sobre a percepção e visão do corpo docente quanto aos valores sociais, os mesmos tendem a defender uma conduta onde segue os padrões sociais, do que seria politicamente correto com comportamentos consideráveis normais pela sociedade. Embora muitos docentes concordem com a atualização de temas contemporâneos no currículo escolar, como por exemplo, prevenção às drogas, saúde, gravidez na adolescência, muitos destes docentes continuam a tratar a homossexualidade como doença, deformação moral ou até mesmo como perversão sexual (Abramovay, 2006, ONU).

Instituições escolares são locais de ampliação das relações sociais, é sem dúvidas é o local onde o jovem constrói a sua auto-imagem, a grande questão é se esta imagem pode construir um ambiente tolerante para homossexuais?

A nossa pesquisa apenas se embasa no questionamento, se as escolas realmente concentram um espaço de socialização, não somente para os jovens heterossexuais, mas também para jovens homossexuais, se elas estão capacitadas ou capacitando-se para uma nova sociedade, discutindo e promovendo a aprendizagem e a convivência dos jovens e que conseqüências o Bullying sofrido na escola poderá causar no indivíduo na vida adulta.

Frente a este questionamento e compartilhamentos nossa pesquisa procurou discutir a relação entre educação e homossexualidade. Foram feitos algumas entrevistas com adolescentes homossexuais dos doze aos dezoito anos. As entrevistas aconteceram no ponto de encontro dos adolescentes na praça Trianon em São Paulo.

Para encaminhar a discussão proposta, delineou-se a seguir o campo teórico metodológico que dá suporte ao estudo e apresentação das análises das entrevistas (em anexo).

Ao falarmos de Educação Sexual sabemos que não é nenhuma novidade; camisinha, gravidez na adolescência, DST´s. Porém sobre a sexualidade na escola, os PCNs (1997) revelam que é apenas nos meados dos anos oitenta, que a demanda por trabalhos começa a preocupar os educadores, em virtude de grandes números de gravidez precoce e do aparecimento da AIDS entre os jovens, já que nos anos oitenta o número de portadores do vírus cresceu muito.

Em 1997 o Ministério da Educação propõe os PCNs para o Ensino Fundamental, onde padronizaria o ensino em todo o território nacional. Nesta nova proposta curricular incluiria com um dos temas transversais a Orientação Sexual que deverá ser abordada pelos professores de 1º ao 5º ano, permeando as diversas disciplinas. Em 1998, esta mesma proposta se amplia abordando também os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio.

Segundo os PCNs (1997) Educação Sexual, é um conjunto de informações desenvolvidas de forma assistemática sobre a sexualidade. Um processo não intencional que envolve as ações exercidas do individuo no dia a dia. Surge na família e também em grupos de convivência do jovem os padrões de moralidade de uma sociedade existente.

É diferente de Orientação Sexual, pois Orientação sexual é um processo de intervenção sistematizado, intencional e planejado, onde promovem o escapo de acolhimento e reflexão das dúvidas, atitudes, valores, posturas, informações, contribuindo para uma vida sexual de forma responsável e prazerosa.

Em todas as escolas, os conteúdos sobre sexualidade são sempre elaborados baseados na heterossexualidade, tais como função do corpo feminino e masculino, gestação, fecundação e partos. Frente a esta maneira de trabalhar apenas o que seria normal e natural é o que compõem o currículo escolar.

Educação sexual, atualmente na escola trabalha normas e iguala todos os indivíduos em torno da heterossexualidade naturalizada. Ao adicionar o tema sexualidade no currículo escolar, as escolas reduzem todas as dimensões múltiplas da sexualidade em apenas um único aspecto e gênero, tornado o conteúdo possível de ser trabalhando em diversas disciplinas. O trabalho sugerido pelos PCNs implica a compreensão de que os conteúdos, concepções e objetivos propostos como Orientação Sexual deverão ser contemplados pelas diversas áreas do conhecimento, passear por diversas disciplinas.

A homossexualidade é decorrente das articulações citadas à cima ou até mesmo fatores psicológicos, com destaque para a formação de identidade resultando no desejo de se vincular emocional e sexualmente a alguém do mesmo sexo. (Chesnais in Abramovay, 2004).

Não existe um consenso entre cientistas pesquisadores, tais como sociólogos, médicos, psicólogos e psicanalistas sobre as origens e causas da homossexualidade e a bissexualidade, embora sempre existam pesquisas tentando buscar uma resposta para esta origem. Sabemos que existe um preconceito muito grande contra homossexuais, e por meio de pesquisas sobre as possíveis causas, talvez encontre uma resposta para amenizar a tolerância contra homossexuais.

Sabendo que existem jovens homossexuais, não podemos deixar este tema do lado de fora da escola. Ele existe e está presente na sala de aula de uma maneira ou de outro. Consideraremos homossexuais toda e qualquer pessoa que sinta atração física e sexual por alguém do mesmo sexo.

Segundo Alves (2006) percebe-se, em conversas com os jovens, a sexualidade é o tema principal para eles, provocar um debate ou uma discussão é participação presente de todo o grupo. Para os jovens adolescentes a sexualidade esta ligada à afetividade, quanto com as relações sociais e a sociabilidade. A juventude é fase das descobertas e experimentação sexual. O que muitas vezes vai definir a identidade sexual do jovem.

Uma pesquisa de uma revista para adolescentes revela que na cidade de São Paulo muitos meninos beijam outros meninos na boca apenas por "modinha", são os chamados de BI-CURIOUS. Os meninos querem experimentar, na opinião das meninas é uma coisa meiga ver dois garotos se beijando, porém estes garotos não querem ser rotulados como homossexuais. Segundo a pesquisa, estes jovens querem apenas experimentar, uma característica da adolescência. O que pode caracterizar na vida adulta a orientação destes jovens como homossexuais ou heterossexuais (Kobayashi, 2006).


"Eu não sou gay. Mas não tem nada de mais em beijar outro cara. Minha única condição é que não dá para fazer isso em qualquer lugar. A maioria dos meus amigos não sabe disso, eles iriam zoar. Não entendem que a gente quer experimentar. E, se é para experimentar, ninguém anda muito a fim de dizer que faz". (Marcelo, 15 - São Paulo em entrevista à Capricho, sessão comportamento 16/11/2007).

Castro, Abramovay e Silva (op. cit. p. 281), também se referem a relatos de meninos que são perturbados por serem delicados já que não apresentam a conduta que deles se espera de acordo com os padrões machistas. Estes são chamados através de termos que carregam muito menos uma referência a práticas sexuais não-convencionais, mas que serve para ferir moralmente o outro, entre eles: "boiola", "bicha", "viado", "travesti" e "gay". Além do palpável decréscimo na auto-estima dos estudantes, as autoras mencionam relatos de abandono dos estudos por parte daqueles que não conseguiram suportar o fardo moral da desqualificação ininterrupta. Na esmagadora maioria das vezes, dizem as autoras, direção escolar e corpo docente se mantiveram numa cômoda posição de indiferença, não intervindo de maneira clara para combater o assédio, as chacotas e as agressões físicas.

A adolescência é uma época cheia de conflitos e quando falamos em escolhas amorosas diferentes dos padrões heterossexuais, torna-se um período critico recheada de conflitos.

Os jovens estão mais envolvidos na violência, caracterizada como Bulliyng Homofônico (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002), na visão dos meninos e meninas sobre o que é violência são muito parecidos. Na pesquisa de 2002 "Juventudes e sexualidade", quando se pediu para os jovens identificar as cinco mais graves violências, a agressão à homossexuais é classificada pelos jovens como a terceira violência mais grave. Porém, nesta mesma pesquisa revelou que a discriminação contra homossexuais é menos valorizada por rapazes do sexo masculino, o que nós remetemos um padrão masculino, um medo ao próximo, o que para eles podem ser confundido consigo mesmo.

Mary Castro e Miriam Abramovay (2003) discutem que atualmente a família sente muita dificuldade em tratar o tema homossexualidade, o dialogo se torna distante quando o assunto é sexualidade. Apesar da boa relação do jovem com a família, quando ele assume sua sexualidade, ele passa a ter dificuldades em se relacionar com seus parentes, como se ele fosse um bicho ou um individuo vindo de outro universo.

Para Castro, Abramovay e Silva (2004) quando falamos de amigos, o fato de assumir ou não a orientação sexual, para os amigos mais íntimos o jovem sente mais medo, pois poderá perder a confiança em ter escondido a sexualidade por tanto tempo, ou até mesmo perder a condição de amigo. Muitos preferem continuar a demonstrar uma condição heterossexual apenas para manter seu circulo de amizades com receio de perdê-la.

Atualmente muitos jovens são infelizes, pois não conseguem contar para os amigos e professores sobre sua orientação sexual. Muitos preferem a morte a poder se assumir, ou sair do armário como os jovens dizem.


10% dos jovens que comentem suicídio no território nacional é pelo simples fato de não poderem assumir sua opção sexual para a sociedade ou por sofrerem de bullying homofônico. A questão econômica vai influenciar diretamente o jovem a assumir sua homossexualidade, uma vez que ele é em muitas vezes dependente financeiramente dos pais. Frente a isto, muitos jovens abandonam a escola para trabalhar e terem uma renda financeira, logo podendo afirmar sua orientação sexual, ninguém vai pagar minhas contas, a vida é minha e faço dela o que eu quero. (Deco Ribeiro, 2006, pesquisa do site e-jovens sobre o suicídio na adolescência).

A família é o primeiro ambiente de socialização de um individuo, logo vem o amigo o qual o jovem encontro dificuldade em falar sobre sexualidade e homossexualidade, a escola seria o próximo ambiente de socialização e dialogo, porém nela não é diferente. Muitos professores sentem dificuldade em trabalhar com alunos abertamente homossexuais, principalmente quando estes estudantes sofrem discriminação o que prejudica o desenvolvimento cognitivo deste aluno e sua relação com o mundo, colegas e professores.


Integrar as dimensões de aprendizagem e sexualidade, proposta pelos PCNs segundo Barroso e Bruschini (1998) é um grande problema, já que as dúvidas dos adolescentes transcendem as informações conteudistas do currículo da escola, eles expressam experiências íntimas e pessoais, muitas vezes constrangendo os educadores.

A grande maioria dos jovens entrevistados em São Paulo, afirmaram que existe uma mudança de comportamento tanto por parte do corpo docente quanto por parte dos colegas de sala ao saberem a orientação sexual dos entrevistados. Segundo eles existe uma recusa por parte de todos, o que reflete nas notas e no rendimento escolar. A aprendizagem é facilitada pela associação ao afeto e ao prazer que a relação educativa pode ou deve proporcionar.

Na escola as relações entre docência e alunos têm o dever de preparar a formação integral e cultural do jovem. Ao pesquisarmos muitos dos entrevistados afirmam se comportarem iguais a jovens heterossexuais, porém, após descobrirem sua orientação sexual professores e os demais colegas mudam a maneira de tratar este jovem.

O espaço escolar não tem grande eficiência para enfrentar condições opostas ao comportamento dito como natural - heterossexual. O que leva os adolescentes homossexuais a diminuírem sua auto-estima.


Mott (2006), diz que quando a escola exige este tipo de comportamento aos adolescentes homossexuais, a escola está agindo como uma reprodutora de desigualdades. Ter uma orientação sexual não significa ser desigual, é na escola que surgem os maiores conflitos de personalidade. Ser diferente não significa ser desigual, na escola.


A sociedade se organiza em uma lógica de diferenças, quando a escola trabalha com a orientação sexual de forma desigual, ela está reproduzindo mais uma vez à idéia de que o comportamento natural "heterossexual " é o que gera relações afetivas e amorosas. (Aquino, 2006, pg. 19-30, Alternativas teóricas e praticas).

Quando a escola nega a compreensão, a tolerância e as discussões sobre homossexualidade, ela exclui o jovem homossexual, fazendo com que este jovem precise buscar território onde ele se sinta a vontade.

Esta busca por território pode ser entendida como um produto da subjetividade de indivíduos ou grupos sociais que se organizam em determinados espaços sociais, como acontece com os entrevistados na Praça Trianon em São Paulo. Logo é um espaço social onde o jovem homossexual pode viver sua identidade (Souza, 1995). A construção dos territórios é um processo dinâmico de atribuição de significados. O jovem acaba procurando territórios criados por grupos que apresentam a mesma orientação sexual.

Ribeiro (2006) chama a atenção para a maior Parada Gay do mundo, na cidade de São Paulo, aproximadamente 3 milhões de pessoas, onde podem demonstrar sua homossexualidade de forma aberta alem de ser a maior mani-festação contra a homofobia.

A exposição homossexual por tanto tempo ficou restrita apenas aos espaços privados, hoje ela ganha destaque entre meios de comunicação, como em novelas, filmes. A PARADA Gay se tornou mais que uma mega festa, mas também um grande mecanismo utilizado pelo Movimento GLBTT contra a quebra de preconceitos e estereótipos, é uma forma de propiciar o convívio social entre diferentes manifestações de sexualidade. Nota-se também nesse evento a expressiva presença de jovens, talvez por causa do colorido, da grande mistura de tipos, pois a juventude é caracterizada também pela sua alegria, pelo movimento e ímpeto natural, o que pode ser encontrado neste evento.

A escola deve ser espaço para discussão da sexualidade, pois a escola é o espaço central de expressão da sexualidade juvenil. A escola pode ter ra-mificações político-pedagógicas para a dimensão dos preconceitos existentes em nossa sociedade.


PROFESSOR DANIEL STEVE

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