terça-feira, 20 de março de 2012

SER PAI, SER MÃE E SER GAY...

Se para os homossexuais assumir sua sexualidade muitas vezes já requer um certo grau de sofrimento e dificuldade de aceitação, externa e interna, para os homossexuais que têm filhos essa situação pode ser ainda mais delicada. O diagnóstico é do psicólogo Klécius Borges, especialista em terapia afirmativa para gays e lésbicas, que conversou com o Armário X sobre os delicados conflitos que podem decorrer da verdade sobre a orientação do desejo dos pais.


DIFICULDADES

Amor e respeito

Normalmente, o principal medo enfrentado por pais e mães homossexuais é o de perder o amor e o respeito dos filhos. E de ser responsável pelo sofrimento que a informação irá infringir-lhes.


Mitos

Além desse medo, o homossexual precisa lidar com o preconceito de forma geral, e também, com alguns mitos a respeito da homossexualidade. Ainda são muito fortes as crenças de que homossexuais não podem ser bons pais e mães, que poderão influenciar a identidade sexual de seus filhos e que, no caso dos pais, são propensos à pedofilia. Há também as questões relativas à relação com os ex-cônjuges e, principalmente para as mães, os aspectos ligados aos direitos de guarda.




CONSELHOS


Educar para a diversidade

Para os pais o mais importante é que planejem da melhor maneira possível, quando e como contar. É importante que se sintam preparados intelectual e emocionalmente para as dificuldades que podem surgir. O ideal é que os filhos saibam o quanto antes. Crianças pequenas podem ser expostas à situações de um jeito natural e ter suas questões respondidas de forma sincera e aberta, de acordo com o grau de compreensão da sua idade. Um outro cuidado essencial é transmitir valores e fornecer modelos de aceitação da diversidade humana (racial, religiosa, ideológica, etc).


Preparar-se para as reações

Ao contar, é importante que os pais não o façam em tom de confissão e que estejam dispostos e preparados para responder às questões, e a lidar com as reações emocionais decorrentes. Não se deve esquecer, que o fato, do filho ou da filha, não aceitariam a novidade de imediato, não significa que não irão aceitá-la no futuro. Os pais e mães devem reafirmar que nada mudará na sua relação com os filhos, explicar porque estão contando (por amor e confiança), e se mostrar abertos à negociação sobre quem mais pode ou deve saber (isso para evitar situações de stress desnecessários) para os filhos ou de embaraço social). E, por fim, se for necessário, oferecer algum tipo de ajuda profissional para que os filhos possam aprender a lidar melhor com a situação.


Confiança nos filhos

Para os filhos, o mais importante é tentar compreender que o fato do pai ou da mãe serem homossexuais não muda em absolutamente nada o amor que eles sentem por seus filhos. Contar é, sobretudo, uma forma de demonstração de amor e de confiança neles. Devem também se sentir à vontade para perguntar o que quiser e a pedir ajuda profissional para que possam aprender a lidar melhor com os conflitos decorrentes da nova situação.


Respeito à individualidade

Há famílias que conseguem lidar melhor com a questão. Geralmente são famílias criadas com valores morais e éticos mais liberais, onde a individualidade é melhor respeitada. Costumam também cultivar o diálogo entre seus membros e estimular a expressão sincera de sentimentos. Essas famílias, embora sofram com a situação, tendem a lidar melhor com os conflitos e, a médio e longo prazo, resolvê-lo de forma satisfatória.

O ARMÁRIO HÉTERO

Não há dúvidas de que a sexualidade permeia boa parte da vida humana. Está presente nas conversas de bar, na literatura, nas propagandas, nas revistas, nas piadas, na moda e até nos púlpitos e altares, uma vez que a "moral sexual" é uma das preocupações hodiernas mais gritantes no entender de católicos, evangélicos e membros de um sem-número de outras religiões.

Apesar disso, freqüentemente nós, homossexuais, somos indagados sobre a necessidade que temos de assumir essa mesma sexualidade "todo o tempo". Muitos héteros e não-assumidos convictos (não me refiro, evidentemente, àqueles que estão em crise ou que não se assumem por motivos superiores à sua vontade) costumam dizer que "nossa vida privada não interessa a ninguém". É comum o argumento de que "nenhum homem (sic) precisa chegar e dizer sempre que é hétero. Por que um gay precisa dizer o tempo todo?".

Na verdade, essa discussão revela um profundo desconhecimento dos discursos sobre a sexualidade – discursos falados, escritos e imagéticos. Certamente a heterossexualidade, em nossa cultura, é reafirmada e ratificada o tempo todo: cada vez que uma propaganda de cerveja mostra o líqüido acompanhado por lindas mulheres e homens embasbacados por elas; cada vez que um casal homem-mulher tasca um beijo na rua sem ser incomodado; em cada capa das centenas de revistas que temos, das de fofocas às de noivas, passando pelas masculinas ao estilo da Playboy; cada vez que o programa do Luciano Huck faz o concurso de rainha do Carnaval ou apresenta quadros como "Namoro às escuras"; cada vez que uma moça apresenta o namorado à família e cada vez que uma igreja realiza uma cerimônia de casamento.

Em todos esses momentos e em centenas de outros que poderíamos enumerar, a heterossexualidade, tida como modelo social, é continuamente afirmada: nem tudo o que dizemos, dizemos por palavras. Não admira, portanto, que os héteros não precisem verbalizar que são héteros: a abundância de símbolos, modelos e sinais que dizem isso é tamanha que a "declaração formal" se torna absolutamente desnecessária.

Costumo afirmar, exatamente por isso, que a orientação sexual, ao menos a heterossexual, quase nunca é uma questão privada, mas pública: ver um homem e uma mulher na rua, salvo algumas exceções, como no caso de visualizarmos homens efeminados, naturalmente evoca para as pessoas a idéia de que o "homem gosta de mulher", e vice-versa.

Esse automatismo somente é quebrado quando o gay ou a lésbica se declara assim. E, afinal, o que é estar no armário, senão apresentar-se publicamente como heterossexual, fazendo uso do ambiente que essa abundância de símbolos propicia? Ninguém poderia permanecer no armário, pelo menos este armário que conhecemos, se não existisse tal automatismo.

É muito interessante recorrer a uma metáfora pela qual costumo ilustrar essa situação: nossa sociedade é constituída como uma loja de sapatos que vende apenas um número, o 40, por exemplo. Quem sentirá necessidade de ir até o vendedor e reclamar que os sapatos estão apertados e a loja tem de começar a vender outros números: quem calça 40 ou quem calça 42?

A resposta é óbvia, e, nessa metáfora, somos nós, homossexuais (ou bissexuais), os que calçamos 42. Os héteros, que calçam 40, estão confortáveis: não somente porque os sapatos lhes servem, mas também porque a propaganda da loja, os cartazes, o anúncio da revista e os vendedores já estão preparados para atendê-los com toda a variedade de modelos que possuem.

Os héteros não precisam "declarar" que são héteros, porque calçar os sapatos já é o bastante – a loja apenas espera que eles sirvam. Entretanto, é evidente que a propaganda, o anúncio, os vendedores ressaltam continuamente que a loja vende o número 40. Logo, pensar que os héteros não afirmam sua sexualidade é ser, no mínimo, inocente.

É interessante, inclusive, ver como o raciocínio que aqui apresento é capenga. Um homem hétero apresentar uma mulher como sua namorada é tido como absolutamente normal e corrente. Por que um homem gay apresentar outro homem como seu namorado é "expor a privacidade desnecessariamente, porque ninguém precisa saber o que fazemos entre quatro paredes"?

Os dois pesos e as duas medidas ficam claros, sendo que, em ambos os casos, existe invariavelmente uma afirmação da identidade e da orientação sexual que vem no pacote. A diferença é apenas que a primeira é aceita e a segunda não. Nesse aspecto, portanto, o que se esconde por trás do discurso da "privacidade homo" é simplesmente o preconceito (ou o autopreconceito), a dificuldade ou impossibilidade de se reconhecer a homossexualidade como legítima.

Alias, não legitimar a homossexualidade é também uma forma curiosa de afirmação hétero e, no que diz respeito à ala masculina, está relacionada a algo que denomino negação do corpo do homem. Defendo o conceito de que a masculinidade heterossexual é fortemente calcada nessa negação. A maneira com que ainda se educam os rapazes por aí leva o homem adulto a desprezar uma relação mais íntima e mais próxima com seu corpo e com os corpos de seus semelhantes – e isso implica em um desprezo da homossexualidade como ratificação da condição heterossexual.

Vamos tornar essas ligações mais claras: no "meio" heterossexual masculino, qualquer coisa é motivo para se evocar, de forma depreciativa, a homossexualidade (ou, mais corretamente, o "homossexualismo", posto que o foco nem sempre é a sexualidade global, mas tão-somente o ato genital entre dois homens). Homens héteros muitas vezes pensam mais em "veados" do que os próprios gays. Uma olhada mais "demorada", um movimento mais "suspeito", uma declaração "mal colocada" e pronto: lá está o pessoal chamando o outro de "veado" ou fazendo alusão a nádegas e similares.

Uma das vantagens de ser homem, gay e assumido é exatamente ficar imune a essas brincadeiras. Algumas são mesmo engraçadas, e é claro que até nós, gays, brincamos com o que diz respeito ao sexo e à homossexualidade - e amamos falar de homem. A relação, entretanto, é diferente, a começar pela intensidade. Ademais, em nosso caso, brincamos com algo que nos é próprio, o que nos nivela e reforça identidades e práticas, na medida em que todos fazem de fato aquilo que brincam fazer (ou a maior parte de tudo aquilo).

No caso dos héteros, porém, a chave não é afirmativa, mas negativa. Brinca-se chamando o outro de "veado", mas espera-se que este outro negue. Quanto mais bravo ele ficar (coisa que não existe propriamente entre nós, gays), mais intensa e "gostosa" torna-se a brincadeira. E por que esse tipo de coisa se relaciona a uma negação do corpo? Porque, social e culturalmente, homens héteros, no aspecto mais geral, não podem se tocar, não podem achar o outro bonito, não podem se abraçar intensamente e nem demonstrar carinho com mais fervor entre si - exceto em certas "ilhas", como, por exemplo, o estádio de futebol.

De resto, tudo é jogado no "lago proibido" do "homossexualismo" – e quem se atreve a questionar paga o preço, ainda que, felizmente, a modernidade tenha trazido por aí um número cada vez maior de homens héteros corajosos, que, não raramente, integram o "S" da sigla GLS. De qualquer forma, em muitos casos, substitui-se a falta de relação mais íntima com o corpo masculino pelas brincadeiras. Elas espelham não apenas uma carga de desprezo pelo "homossexualismo" que uma outra relação poderia desfazer, mas também uma reafirmação da heterossexualidade. Mais do que isso, elas também evidenciam um policiamento: homens héteros, salvo os corajosos a que me referi, passam boa parte do tempo provando e/ou dizendo para os outros que não são gays, ainda que tudo seja mascarado por "inocentes" piadinhas.

Dito isso, considero que eu, por meu temperamento, teria muita dificuldade, nesse aspecto, em ser hétero. Considero uma vantagem ser gay no sentido de poder beijar e abraçar meus amigos gays, sentar-me junto deles, deitar em seus colos. Isso, por si só, nada tem de interesse sexual imediato, pois nós, gays e assumidos, também o fazemos com as meninas. A diferença é que podemos aproveitar esse contato com ambos os corpos, o que nos ajuda a ter uma relação mais saudável e até mais plena com nossos próprios corpos.

Nesse ponto, devo esclarecer que este artigo não é uma apologia aos gays: claro que alguns (ou muitos?) de nós não têm esse tipo de consciência, e, além disso, percebo que o mesmo fenômeno se sucede às mulheres, sejam héteros, sejam lésbicas. Apesar de a educação dispensada a elas ter muito de ridícula (que o digam as feministas), nesse ponto tem um bom efeito. Mulheres fazem coisas incríveis juntas: vão ao banheiro em dupla, mostram novas estrias e celulites umas às outras, olham-se quando nuas, tocam-se, beijam-se e até arriscam-se a sair de mãos dadas, mesmo que sejam apenas boas amigas e heterossexuais. Não residiria justamente aí parte da "sensibilidade feminina"? No caso delas, fica ainda mais evidente que a questão que proponho não passa pelo contato com o objeto de desejo imediato.

Em um vestiário masculino, por sua vez, quem não olhar pro chão ou dispensar mais de alguns poucos segundos ao corpo do outro corre riscos. Se as mulheres mostram estrias novas no peito para suas amigas, um homem hétero é praticamente incapaz de mostrar o pênis para um amigo, a fim de que ele opine sobre uma ferida, por exemplo. Se as mulheres não vêem razão para se diminuírem depois de examinadas por um ginecologista, idas de um homem hétero a um urologista já despertam comentários jocosos – e que dirá um exame de toque retal, tão invasivo quanto um papanicolau, mas bem mais "atacado" do que este último?

Talvez por isso seja possível dizer que, com certa margem de segurança e descontando aqueles que carecem de informações básicas, mulheres de qualquer orientação e gays, em média, cuidam mais de seu corpo e têm maior conhecimento sobre ele do que os homens héteros, salvo algumas maravilhosas exceções.

É uma pena que esses homens, presos em sua própria masculinidade e tão seguros de si na ponta da pirâmide sócio-sexual, não percebam os males que a negação de seu próprio corpo lhes causa. As brincadeiras porque um gay elogiou a beleza de um deles ou porque um amigo deu uma reboladinha "supeita" são apenas um sintoma. Sinal de que algo, no fundo, não vai bem na sexualidade - mesmo que não se perceba. Talvez seja correto, afinal, dizer que os homens héteros também precisam romper com esse estado de coisas. Precisam sair do armário.

Por João Marinho

O PAPEL DO EDUCADOR SOCIAL CONTRA AS PRÁTICAS HOMOFÓBICAS

As preocupações com o tema desta pesquisa, homossexualidade na escola, surgiram da observação do dia a dia de alunos com trejeitos homossexuais que muitas vezes, acabam sendo discriminado dentro da sala de aula, não somente pelos seus colegas, mas também pelos professores. Um tema tão delicado e difícil de ser trabalhado nos remete a idéia de refletirmos sobre o sentido em que a pratica pedagógica deve intervir, para uma relação saudável.

O dia a dia em sala de aula exige um processo de interação entre educadores e alunos. Interação esta que se torna mais rica, quando os educadores conhecem os alunos, sabem como vivem, suas lógicas de aprendizagens, como se relacionam com os saberes e valores instituídos e difundidos pela Escola, e como merecem ser respeitados nesse espaço (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002).

Sabemos que na escola a diversidade é constante seja ela dada pela etnia, religião, origem regional, orientação sexual, dentre outras. Diversos professores sentem resistência em trabalhar a diversidade sexual em sala de aula. Até mesmo já criam uma visão um pouco negativista que se o aluno é homossexual ele já trás consigo uma definição de comportamento.

O fato que torna interessante o estudo dos jovens homossexuais na escola é a grande dificuldade de convivência e socialização que o mesmo terá. O jovem homossexual precisa guardar sua identidade, pois caso a expresse, será rotulado, e poderá se tornar alvo de bullying homofóbico, tanto por parte dos colegas quanto dos professores.

É dever de a escola reverter este quadro. O Ministério da Educação, por meio dos Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs (1997), oferece às escolas a possibilidade de trabalhar orientação sexual com seus alunos, incluindo conceitos básicos e informações sobre homossexualidade aos estudantes de todas as faixas de idade.

Alves (2006) diz que a educação é a melhor forma para combater o preconceito e a discriminação, o que acontece quando a própria escola não sabe como lidar com este tema? A escola avançou muito nas últimas décadas na discussão de temas como discriminação racial, gravidez na adolescência e respeito aos portadores do vírus da AIDS. Porém, quando se trata de homossexualidade na escola, fica evidente que educadores, orientadores e a família não estão preparados para lidar com o tema.

Quando falamos em homossexualidade e educação, devemos almejar que é um trabalho que deve ser desenvolvido urgentemente nas escolas brasileiras. Uma pesquisa da ONU - Organização das Nações Unidades para a Educação, a Ciência e a Cultura - UNESCO sobre a juventude e a sexualidade envolvendo alunos do ensino fundamental, pais, comunidade e corpo docente. E a mesma revela que, professores não apenas fica calado frente a atos de discriminação e preconceito, como também muitas vezes colaboram ativamente na produção desta violência contra jovens homossexuais.

Sobre a percepção e visão do corpo docente quanto aos valores sociais, os mesmos tendem a defender uma conduta onde segue os padrões sociais, do que seria politicamente correto com comportamentos consideráveis normais pela sociedade. Embora muitos docentes concordem com a atualização de temas contemporâneos no currículo escolar, como por exemplo, prevenção às drogas, saúde, gravidez na adolescência, muitos destes docentes continuam a tratar a homossexualidade como doença, deformação moral ou até mesmo como perversão sexual (Abramovay, 2006, ONU).

Instituições escolares são locais de ampliação das relações sociais, é sem dúvidas é o local onde o jovem constrói a sua auto-imagem, a grande questão é se esta imagem pode construir um ambiente tolerante para homossexuais?

A nossa pesquisa apenas se embasa no questionamento, se as escolas realmente concentram um espaço de socialização, não somente para os jovens heterossexuais, mas também para jovens homossexuais, se elas estão capacitadas ou capacitando-se para uma nova sociedade, discutindo e promovendo a aprendizagem e a convivência dos jovens e que conseqüências o Bullying sofrido na escola poderá causar no indivíduo na vida adulta.

Frente a este questionamento e compartilhamentos nossa pesquisa procurou discutir a relação entre educação e homossexualidade. Foram feitos algumas entrevistas com adolescentes homossexuais dos doze aos dezoito anos. As entrevistas aconteceram no ponto de encontro dos adolescentes na praça Trianon em São Paulo.

Para encaminhar a discussão proposta, delineou-se a seguir o campo teórico metodológico que dá suporte ao estudo e apresentação das análises das entrevistas (em anexo).

Ao falarmos de Educação Sexual sabemos que não é nenhuma novidade; camisinha, gravidez na adolescência, DST´s. Porém sobre a sexualidade na escola, os PCNs (1997) revelam que é apenas nos meados dos anos oitenta, que a demanda por trabalhos começa a preocupar os educadores, em virtude de grandes números de gravidez precoce e do aparecimento da AIDS entre os jovens, já que nos anos oitenta o número de portadores do vírus cresceu muito.

Em 1997 o Ministério da Educação propõe os PCNs para o Ensino Fundamental, onde padronizaria o ensino em todo o território nacional. Nesta nova proposta curricular incluiria com um dos temas transversais a Orientação Sexual que deverá ser abordada pelos professores de 1º ao 5º ano, permeando as diversas disciplinas. Em 1998, esta mesma proposta se amplia abordando também os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e ao Ensino Médio.

Segundo os PCNs (1997) Educação Sexual, é um conjunto de informações desenvolvidas de forma assistemática sobre a sexualidade. Um processo não intencional que envolve as ações exercidas do individuo no dia a dia. Surge na família e também em grupos de convivência do jovem os padrões de moralidade de uma sociedade existente.

É diferente de Orientação Sexual, pois Orientação sexual é um processo de intervenção sistematizado, intencional e planejado, onde promovem o escapo de acolhimento e reflexão das dúvidas, atitudes, valores, posturas, informações, contribuindo para uma vida sexual de forma responsável e prazerosa.

Em todas as escolas, os conteúdos sobre sexualidade são sempre elaborados baseados na heterossexualidade, tais como função do corpo feminino e masculino, gestação, fecundação e partos. Frente a esta maneira de trabalhar apenas o que seria normal e natural é o que compõem o currículo escolar.

Educação sexual, atualmente na escola trabalha normas e iguala todos os indivíduos em torno da heterossexualidade naturalizada. Ao adicionar o tema sexualidade no currículo escolar, as escolas reduzem todas as dimensões múltiplas da sexualidade em apenas um único aspecto e gênero, tornado o conteúdo possível de ser trabalhando em diversas disciplinas. O trabalho sugerido pelos PCNs implica a compreensão de que os conteúdos, concepções e objetivos propostos como Orientação Sexual deverão ser contemplados pelas diversas áreas do conhecimento, passear por diversas disciplinas.

A homossexualidade é decorrente das articulações citadas à cima ou até mesmo fatores psicológicos, com destaque para a formação de identidade resultando no desejo de se vincular emocional e sexualmente a alguém do mesmo sexo. (Chesnais in Abramovay, 2004).

Não existe um consenso entre cientistas pesquisadores, tais como sociólogos, médicos, psicólogos e psicanalistas sobre as origens e causas da homossexualidade e a bissexualidade, embora sempre existam pesquisas tentando buscar uma resposta para esta origem. Sabemos que existe um preconceito muito grande contra homossexuais, e por meio de pesquisas sobre as possíveis causas, talvez encontre uma resposta para amenizar a tolerância contra homossexuais.

Sabendo que existem jovens homossexuais, não podemos deixar este tema do lado de fora da escola. Ele existe e está presente na sala de aula de uma maneira ou de outro. Consideraremos homossexuais toda e qualquer pessoa que sinta atração física e sexual por alguém do mesmo sexo.

Segundo Alves (2006) percebe-se, em conversas com os jovens, a sexualidade é o tema principal para eles, provocar um debate ou uma discussão é participação presente de todo o grupo. Para os jovens adolescentes a sexualidade esta ligada à afetividade, quanto com as relações sociais e a sociabilidade. A juventude é fase das descobertas e experimentação sexual. O que muitas vezes vai definir a identidade sexual do jovem.

Uma pesquisa de uma revista para adolescentes revela que na cidade de São Paulo muitos meninos beijam outros meninos na boca apenas por "modinha", são os chamados de BI-CURIOUS. Os meninos querem experimentar, na opinião das meninas é uma coisa meiga ver dois garotos se beijando, porém estes garotos não querem ser rotulados como homossexuais. Segundo a pesquisa, estes jovens querem apenas experimentar, uma característica da adolescência. O que pode caracterizar na vida adulta a orientação destes jovens como homossexuais ou heterossexuais (Kobayashi, 2006).


"Eu não sou gay. Mas não tem nada de mais em beijar outro cara. Minha única condição é que não dá para fazer isso em qualquer lugar. A maioria dos meus amigos não sabe disso, eles iriam zoar. Não entendem que a gente quer experimentar. E, se é para experimentar, ninguém anda muito a fim de dizer que faz". (Marcelo, 15 - São Paulo em entrevista à Capricho, sessão comportamento 16/11/2007).

Castro, Abramovay e Silva (op. cit. p. 281), também se referem a relatos de meninos que são perturbados por serem delicados já que não apresentam a conduta que deles se espera de acordo com os padrões machistas. Estes são chamados através de termos que carregam muito menos uma referência a práticas sexuais não-convencionais, mas que serve para ferir moralmente o outro, entre eles: "boiola", "bicha", "viado", "travesti" e "gay". Além do palpável decréscimo na auto-estima dos estudantes, as autoras mencionam relatos de abandono dos estudos por parte daqueles que não conseguiram suportar o fardo moral da desqualificação ininterrupta. Na esmagadora maioria das vezes, dizem as autoras, direção escolar e corpo docente se mantiveram numa cômoda posição de indiferença, não intervindo de maneira clara para combater o assédio, as chacotas e as agressões físicas.

A adolescência é uma época cheia de conflitos e quando falamos em escolhas amorosas diferentes dos padrões heterossexuais, torna-se um período critico recheada de conflitos.

Os jovens estão mais envolvidos na violência, caracterizada como Bulliyng Homofônico (Chesnais in Abramovay e Rua, 2002), na visão dos meninos e meninas sobre o que é violência são muito parecidos. Na pesquisa de 2002 "Juventudes e sexualidade", quando se pediu para os jovens identificar as cinco mais graves violências, a agressão à homossexuais é classificada pelos jovens como a terceira violência mais grave. Porém, nesta mesma pesquisa revelou que a discriminação contra homossexuais é menos valorizada por rapazes do sexo masculino, o que nós remetemos um padrão masculino, um medo ao próximo, o que para eles podem ser confundido consigo mesmo.

Mary Castro e Miriam Abramovay (2003) discutem que atualmente a família sente muita dificuldade em tratar o tema homossexualidade, o dialogo se torna distante quando o assunto é sexualidade. Apesar da boa relação do jovem com a família, quando ele assume sua sexualidade, ele passa a ter dificuldades em se relacionar com seus parentes, como se ele fosse um bicho ou um individuo vindo de outro universo.

Para Castro, Abramovay e Silva (2004) quando falamos de amigos, o fato de assumir ou não a orientação sexual, para os amigos mais íntimos o jovem sente mais medo, pois poderá perder a confiança em ter escondido a sexualidade por tanto tempo, ou até mesmo perder a condição de amigo. Muitos preferem continuar a demonstrar uma condição heterossexual apenas para manter seu circulo de amizades com receio de perdê-la.

Atualmente muitos jovens são infelizes, pois não conseguem contar para os amigos e professores sobre sua orientação sexual. Muitos preferem a morte a poder se assumir, ou sair do armário como os jovens dizem.


10% dos jovens que comentem suicídio no território nacional é pelo simples fato de não poderem assumir sua opção sexual para a sociedade ou por sofrerem de bullying homofônico. A questão econômica vai influenciar diretamente o jovem a assumir sua homossexualidade, uma vez que ele é em muitas vezes dependente financeiramente dos pais. Frente a isto, muitos jovens abandonam a escola para trabalhar e terem uma renda financeira, logo podendo afirmar sua orientação sexual, ninguém vai pagar minhas contas, a vida é minha e faço dela o que eu quero. (Deco Ribeiro, 2006, pesquisa do site e-jovens sobre o suicídio na adolescência).

A família é o primeiro ambiente de socialização de um individuo, logo vem o amigo o qual o jovem encontro dificuldade em falar sobre sexualidade e homossexualidade, a escola seria o próximo ambiente de socialização e dialogo, porém nela não é diferente. Muitos professores sentem dificuldade em trabalhar com alunos abertamente homossexuais, principalmente quando estes estudantes sofrem discriminação o que prejudica o desenvolvimento cognitivo deste aluno e sua relação com o mundo, colegas e professores.


Integrar as dimensões de aprendizagem e sexualidade, proposta pelos PCNs segundo Barroso e Bruschini (1998) é um grande problema, já que as dúvidas dos adolescentes transcendem as informações conteudistas do currículo da escola, eles expressam experiências íntimas e pessoais, muitas vezes constrangendo os educadores.

A grande maioria dos jovens entrevistados em São Paulo, afirmaram que existe uma mudança de comportamento tanto por parte do corpo docente quanto por parte dos colegas de sala ao saberem a orientação sexual dos entrevistados. Segundo eles existe uma recusa por parte de todos, o que reflete nas notas e no rendimento escolar. A aprendizagem é facilitada pela associação ao afeto e ao prazer que a relação educativa pode ou deve proporcionar.

Na escola as relações entre docência e alunos têm o dever de preparar a formação integral e cultural do jovem. Ao pesquisarmos muitos dos entrevistados afirmam se comportarem iguais a jovens heterossexuais, porém, após descobrirem sua orientação sexual professores e os demais colegas mudam a maneira de tratar este jovem.

O espaço escolar não tem grande eficiência para enfrentar condições opostas ao comportamento dito como natural - heterossexual. O que leva os adolescentes homossexuais a diminuírem sua auto-estima.


Mott (2006), diz que quando a escola exige este tipo de comportamento aos adolescentes homossexuais, a escola está agindo como uma reprodutora de desigualdades. Ter uma orientação sexual não significa ser desigual, é na escola que surgem os maiores conflitos de personalidade. Ser diferente não significa ser desigual, na escola.


A sociedade se organiza em uma lógica de diferenças, quando a escola trabalha com a orientação sexual de forma desigual, ela está reproduzindo mais uma vez à idéia de que o comportamento natural "heterossexual " é o que gera relações afetivas e amorosas. (Aquino, 2006, pg. 19-30, Alternativas teóricas e praticas).

Quando a escola nega a compreensão, a tolerância e as discussões sobre homossexualidade, ela exclui o jovem homossexual, fazendo com que este jovem precise buscar território onde ele se sinta a vontade.

Esta busca por território pode ser entendida como um produto da subjetividade de indivíduos ou grupos sociais que se organizam em determinados espaços sociais, como acontece com os entrevistados na Praça Trianon em São Paulo. Logo é um espaço social onde o jovem homossexual pode viver sua identidade (Souza, 1995). A construção dos territórios é um processo dinâmico de atribuição de significados. O jovem acaba procurando territórios criados por grupos que apresentam a mesma orientação sexual.

Ribeiro (2006) chama a atenção para a maior Parada Gay do mundo, na cidade de São Paulo, aproximadamente 3 milhões de pessoas, onde podem demonstrar sua homossexualidade de forma aberta alem de ser a maior mani-festação contra a homofobia.

A exposição homossexual por tanto tempo ficou restrita apenas aos espaços privados, hoje ela ganha destaque entre meios de comunicação, como em novelas, filmes. A PARADA Gay se tornou mais que uma mega festa, mas também um grande mecanismo utilizado pelo Movimento GLBTT contra a quebra de preconceitos e estereótipos, é uma forma de propiciar o convívio social entre diferentes manifestações de sexualidade. Nota-se também nesse evento a expressiva presença de jovens, talvez por causa do colorido, da grande mistura de tipos, pois a juventude é caracterizada também pela sua alegria, pelo movimento e ímpeto natural, o que pode ser encontrado neste evento.

A escola deve ser espaço para discussão da sexualidade, pois a escola é o espaço central de expressão da sexualidade juvenil. A escola pode ter ra-mificações político-pedagógicas para a dimensão dos preconceitos existentes em nossa sociedade.


PROFESSOR DANIEL STEVE

sexta-feira, 9 de março de 2012

O QUE É A VERDADE

No início da história da Filosofia, os filósofos começaram a se perguntar sobre as mais diversas questões que permeiam o pensamento humano. Uma delas é sobre a verdade. O que é a Verdade?
Platão inaugura seu pensamento sobre a verdade afirmando: “Verdadeiro é o discurso que diz as coisas como são; falso aquele que as diz como não são”. É a partir daí que começou a se formar a problemática em torno da verdade.
No dicionário Aurélio encontra-se a seguinte definição de verdade: “Conformidade com o real”. Talvez merecesse um comentário mais amplo, a afirmação acima de Platão, mas partindo do conceito dado pelo dicionário pode-se chegar as seguintes conclusões: Não existe uma verdade cujo sujeito possa ser o seu detentor; a Filosofia chegou a distinguir cinco conceitos fundamentais da verdade: a verdade como correspondência, como revelação, como conformidade a uma regra, como coerência e como utilidade. Falar-se-á um pouco de cada uma.
A verdade como correspondência diz respeito à afirmação platônica que foi citado no inicio deste texto. É a verdade que garante a realidade, ou seja, o objeto falado é apresentado como ele é. Aristóteles diz que: “Negar aquilo que é, e afirmar aquilo que não é, é falso, enquanto afirmar o que é e negar o que não é, é verdade”. Essa definição de verdade é a mais antiga e divulgada.
A concepção de verdade, sob o aspecto da revelação, surge num tempo em que empirismo, metafísica e teologia apresentaram novas formas de se entender a realidade. Trata-se de uma verdade que sob a luz empirista se revelou ao homem por meio das sensações, e sob a perspectiva metafísica ou teológica mostrou o verdadeiro por meio de um Ser supremo, Deus, que evidencia a essência das coisas.
A conformidade apresenta uma verdade que se adapta a uma regra ou um conceito. E esta noção de conformidade foi usada pela primeira vez por Platão: “... tudo o que me parece de acordo com este, considero verdadeiro,...” e retornando a história, Santo Agostinho afirma: “existe, sobre a nossa mente, uma lei que se chama verdade”. Em suma, a verdade, no sentido da conformidade, deve-se adequar a uma regra ou conceito.
Já na metade do século XIX, surgiu no movimento idealista inglês, a noção de verdade como coerência. Essa idéia de coerência foi difundida pelo filósofo Bradley. Ele critica o mundo da experiência humana partindo da idéia de que “o princípio de que o que é contraditório, não pode ser real”, isso o fez aceitar que “a verdade é coerência perfeita”.
Por fim, achou-se o pressuposto de verdade como utilidade, formulada primeiramente por Nietzsche: “Verdadeiro não significa em geral senão o que é apto à conservação da humanidade. O que me deixa sem vida quando acredito nele não é a verdade para mim, é uma relação arbitrária e ilegítima do meu ser com as coisas externas”. A preocupação é que a verdade como utilidade seja algo que faça bem toda a humanidade. O que não é de práxis para a conservação do bem, podemos dizer que é verdade?
Toda essa investigação sobre a verdade limita muito esse tema. A verdade possui inúmeros significados, dependendo da pessoa que a defina. Ela continuará sendo uma das questões mais abordadas nestes últimos tempos.
Estamos em um mundo de grandes transformações. Muitas ideologias são nos apresentadas como verdades inquebrantáveis. Somos forçados a acreditar na mídia, na política e na manifestação religiosa. Isso acontece de uma maneira inconsciente.
O que nos libertará de toda essa prisão é nossa atitude como sujeitos formadores de consciência crítica. A questão é ir afundo sobre aquilo que nos é apresentado. Fugir do senso comum e criar opiniões próprias. Depende de você encarar isso como verdade.