1. Se a Igreja condena a homossexualidade, como é possível uma pessoa gay ser cristã?
Antes de responder esta complexa pergunta, é importante distinguir com clareza alguns termos.
Você sabe exatamente o que quer dizer a palavra Igreja? Quando se fala em Igreja não se pode pensar apenas no Papa, Pastores, Missíonários, nos bispos e no clero.
Igreja é uma realidade múltipla, plural, que abraça a todos, da criança ao velho. É todo o povo de Deus que acredita em Jesus, o Cristo, e procura viver de acordo com a vida dele.
Portanto, dizer que a Igreja não aceita as pessoas homossexuais é generalizar.
Essa afirmação costuma remeter à posição dos documentos oficiais que abordam a questão. Mas há outros posicionamentos possíveis. Veja o quanto é o numero de igrejas que tem posturas proibitivas diferentes uma das outras, Católicas, Adventistas,Congregação Cristã, Batista e muitas outras. Temos a imensa alegria de seguir Jesus Cristo e compreender que, por ser diversa, a Igreja acolhe as diferenças humanas.
Importante também é você compreender o significado do termo Magistério quando usado no contexto eclesiástico, bem como algumas de suas atribuições.
Magistério ou Ministério da Igreja se refere à função e autoridade próprias da hierarquia (Missionário, Pastores, Presbiteros e etc.
O Ministério recebeu de Deus o carisma para interpretar a fé viva da Igreja. Em linguagem teológica, é o responsável por acolher todo dado de fé que surge a partir do encontro entre uma situação nova e a Revelação divina.
O Ministério deve acompanhar a imensa comunidade dos que crêem, guardando aquilo que é fundamental e não pode se perder ou ser imparcial nas contínuas mudanças que as sociedades enfrentam com o passar do tempo.
Antes a abordagem da homossexualidade nos documentos ministeriais pareciam indicar que uma pessoa gay só poderia ser cristã se optasse por viver no celibato. Contráriava a própria bíblia, pois Cada um conhece sua necessidade de viver sem sexo, pois é melhor ter alguem para o satisfazer ao viver uma vida promíscua.
Por exemplo, o caso da salvação. Antes foi expresso como doutrina que os de fora da Igreja Católica não poderiam se salvar. Foi doutrina, mas não se mostrou definitiva. O Concílio Vaticano II gerou documentos que abrem a perspectiva da salvação para os que crêem em Cristo, mas não na comunhão da Igreja católica; para os que crêem em Deus, mas não no Cristo; e até para os que não crêem em Deus, mas vivem de acordo com os valores retos da sua consciência. Através de Lutero, hoje existem muitas igrejas evangélicas, pentecostal, adventista, que provam que a salvação não é exclusivo aos que participam da igreja católica. Lembrando, então antes de Lutero a salvação era só para os católicos, realmente voce acredita nisso? que Deus ficou indiferente a humanidade todos esses anos...
Outro aspecto a considerar é o fato do Mimistério ou Magistério da Igreja não ocupar posição absoluta.
A igreja reconhece que cada ser humano deve antepor qualquer dever ou lei à sua própria consciência. “A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”
O acima citado indica que a mediação plena para a ação do homem é a sua consciência. Obedecer à consciência é o que se pode fazer de melhor para agradar a Deus.
É claro que uma consciência inadequadamente formada pode acolher qualquer conceito como verdade, seguindo apenas critérios de conveniência, mas cuidado... “Não raro, porém acontece que a consciência erra, por ignorância invencível, sem por isso perder a própria dignidade. Outro tanto não se pode dizer quando o homem se descuida de procurar a verdade e o bem...”
Por isso a obrigação de todo cristão e, de modo geral, de todo ser humano é buscar formação e desejar a verdade. Quando a pessoa procura confrontar-se sem medo com o que é dito e, mesmo assim, percebe que sua consciência indica um caminho distinto, ela “não deve ser forçada a agir contra a própria consciência”. Pois sua salvação é individual.
É ainda preciso considerar que o Ministério realiza sua missão de discernimento da doutrina e dos costumes morais baseado nos diversos elementos que compõem a Igreja:
• a Tradição oral e escrita (Sagrada Escritura);
• as posições do Magistério e dos Doutores da Igreja que compõem a tradição eclesial;
• o senso comum dos fiéis: a sensibilidade do povo de Deus para assuntos que digam respeito à fé, já que o Espírito Santo é derramado e age em toda a comunidade dos crentes.
Se o discernimento é levado a sério gera , ainda que lentamente, uma maior abertura quanto à compreensão da situação e dos anseios das pessoas gays (não por malévola propaganda organizada, e sim como fruto do que as ciências humanas vêm afirmando sobre a condição homossexual), há de se esperar reflexos no Magistério.
Os documentos recentes podem trazer formulações que julgamos não traduzir adequadamente a maneira como as pessoas gays compreendem o seu amor. Mas, considerando o conjunto de pronunciamentos oficiais que abordam a questão, é possível perceber pequenos avanços – ainda que prejudicados com o uso de expressões negativas muito fortes.
2. Quais são as bases para a Igreja condenar a homossexualidade?
A homossexualidade em si não é vista pela Igreja como pecado.
Em concordância com as ciências humanas – e, talvez, até mesmo como resultado das ciências humanas e sociais –, a Igreja entende que a homossexualidade é uma tendência, uma orientação: não uma escolha ou opção. Daí a orientação homossexual não poder ser classificada enquanto pecado, já que este inclui sempre uma dimensão de ação pessoal.
Se orientação homossexual não é pecado, outra é a avaliação do Magistério com relação aos atos que provêm da orientação: estes sim, seriam pecaminosos.
A Igreja realiza tal juízo baseada em:
• certos textos bíblicos que mencionam relações entre pessoas do mesmo sexo (cuja interpretação tem ganhado novas matizes considerando a cultura da época e o fato de serem situações muito diferentes do que hoje chamamos homossexualidade;
• no ensino tradicional do Magistério;
• na chamada “lei natural”.
“Lei natural” seria a orientação inerente à vida humana que ganha sentido por ter sido criada por Deus. A criação – e nela, o ser humano – possuiria, em si mesma, uma orientação a ser respeitada, pois provém do próprio Deus, não da cultura ou de tradições sociais.
A “lei natural” faz com que a Igreja compreenda todo ato sexual como necessario e não somente aberto à procriação. Isso é provado através do uso de contraceptivos, mulheres que nasce estéreis ou não querem ter filhos.
Nas últimas décadas, tem se insistido também na dimensão unitiva do ato sexual: um encontro profundo entre duas pessoas que renova e expressa seu amor.
Por estar presente em todos os seres humanos, a “lei natural” justificaria um discurso universal, e não apenas dirigido aos fiéis.
A existência de uma “lei natural” imutável para todos os seres humanos, contendo tantas especificações como as interpretadas pelo Magistério, não é de modo algum compartilhado por outras instâncias no mundo de hoje.
O avanço do pluralismo, a maior comunicação entre diferentes culturas e o reflexo de tais processos em ciências como a Antropologia e a Sociologia tornou possível a percepção que muitas das afirmações aparentemente naturais ao ser humano eram, sim, naturais a culturas específicas.
Inúmeros fatores sustentavam uma certa visão de ser humano como aplicável a todos. Mesmo as instâncias que entendem haver uma lei natural, discutem se dela se podem auferir tantas especificações, orientações tão pormenorizadas.
Pensemos, por exemplo, na dimensão procriativa inerente à atividade sexual segundo a interpretação que a tem Igreja acerca da “lei natural”.
A dimensão procriativa da sexualidade teria papel importante na medida em que resguarda o ato sexual de ser mero ato fechado em um gozo egoísta. Evitaria a instrumentalização do outro, torná-lo objeto de satisfação egocêntrica.
De fato, o ato sexual deve gerar vida. Mas será que isso implica necessariamente em gerar filhos?
Todo ato sexual vivido na doação de si mesmo ao outro, na acolhida da outra pessoa, num amor sincero não é também gerador de vida? Um casal heterossexual que, em certo momento da vida, se abstém da possibilidade de gerar filhos utilizando métodos contraceptivos não está pensando em uma vida mais plena para a descendência futura?
Nem sempre o sinal de abertura à vida significa a geração de filhos. Se assim fosse, atos sexuais de pessoas comprovadamente estéreis não seriam lícitos de acordo com a “lei natural”.
Quanto à dimensão unitiva, a complementariedade entre pessoas expressada e aprofundada no ato sexual não diz respeito somente à completude corpo de homem/corpo de mulher, e sim pessoas que amam e estão disposta a formar família, ainda que não tenha filhos, ou não possam, ou sejam homossexuais.
Poderíamos continuar crendo que os traços orgânicos, anatômicos definem as pessoas e suas relações com o mundo, quando, na verdade, o que importa é a compreensão a respeito de si, ainda que a partir de uma base física, que a pessoa possui e forjará suas relações.
Se, mais do que a ação de glândulas, o que nos faz ser humanos é o “eu” – a subjetividade própria de cada um –, então nossa sexualidade tem mais a ver com “cabeça” do que com anatomia.
Por isso, não é possível dizer que corpos homem-mulher são complementares para todas as pessoas. Trata-se de uma verdade plena para heterossexuais. A completude expressa pelos corpos na união sexual é, sim, a expressão de uma vida, de um encontro que abarca toda a pessoa em relação à outra, se esta dimensão unitiva chama a atenção para o caráter humanizante do ato sexual em uma relação, isto é verdade para qualquer relação de amor entre duas pessoas, mesmo que sejam um casal homossexual.
3. O cristão gay que mantenha um relacionamento está em pecado?
Alguns documentos da Igreja classificam os atos homossexuais como “intrinsecamente desordenados”. Importante frisar que, de acordo com a doutrina, “desordem” é uma classificação insuficiente para determinar o pecado.
Pode parecer estranho à primeira vista, mas há nuances que distinguem os conceitos de “desordenado, errado, mau” e “pecado”.
A Teologia Moral cristã chama de pecado a circunstância que reúna três elementos: matéria grave, liberdade na ação e consciência de que aquilo é pecado. Só a junção dos três elementos caracteriza pecado grave, segundo a Igreja.
A lei que ensina que verdadeiramente somos livres, em Cristo.: “Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social” Quem orienta sua conduta na direção da verdade sincera e tem uma consciência bem formada deve, então, seguir a voz de sua consciência. É o que a Igreja espera de todos os cristãos.
Muitos cristãos gays simplesmente não reconhecem suas vidas e seus relacionamentos na forma “desordenada” de que falam alguns documentos. Por isso, como diz o texto conciliar mencionado no parágrafo anterior, não podem ir contra a sua consciência se esta não os acusa de estar em pecado.
A situação pode gerar muita insegurança em algumas pessoas de fé. Mas é de se questionar se tal insegurança não seria fruto de certo infantilismo espiritual que tem o Ministério como instância substituta da própria consciência: uma espécie de “Super-ego”. O Ministério não pode, nem se pretende ser, substituto da consciência dos cristãos.
Confrontar-se com uma consciência bem formada e agir em conformidade a ela. Estas são as características de um cristão “maior de idade” segundo Karl Rahner, um dos maiores teólogos do século XX. Disse Rahner: “Mas, em última instância (o cristão) terá que perguntar-se perante Deus e sua consciência, sem que seu espírito lúcido se deixe subornar, a partir de uma consciência limpa e, naturalmente, através de todos os meios que dispõe nestes casos um homem e um cristão, qual é a sua convicção pessoal e sua decisão nesse caso concreto” (RAHNER, K. Artigo “ El Cristiano Mayor de Edad” ).
Com relação específica às uniões gays, Jan Visser, um dos grandes moralistas da atualidade, afirmou: “Quando alguém está lidando com pessoas que são profundamente homossexuais que estarão em sérios problemas pessoais e talvez sociais, a não ser que eles se mantenham em uma parceria ao longo da sua vida homossexual, essa pessoa que as assiste pode recomendar-lhes que procurem tal parceria, e aceitar este relacionamento como o melhor que pode ser realizado na situação atual.”
Importante mencionar que Visser trabalhou na equipe que compôs o documento Declaração sobre algumas questões de Ética Sexual , de 1975, que faz uma avaliação negativa da homossexualidade. Posteriormente, como vimos na citação acima, ele admitiu poder haver uma diferente avaliação de acordo com casos concretos.
4. O Antigo Testamento condena a homossexualidade?
A Bíblia traz algumas passagens que tratam da relação sexual entre pessoas do mesmo sexo. Antes de abordá-las, é necessário fazer uma escolha clara a respeito do tipo de interpretação que realizamos ao ler a Bíblia.
Todo cristão convicto de sua fé compreende a Sagrada Escritura como Palavra de Deus que revela, pela história da salvação presente no Antigo e no Novo Testamento, seu amor por toda a humanidade.
Por ser Palavra de Deus, a Bíblia pode dar a equivocada impressão de ser fruto de um ditado divino ou resultado de alguma experiência mística em que o homem tivesse sido mero instrumento para “receber” a Palavra e escrevê-la.
O testemunho da presença de Deus não foi recebido diretamente do céu. Não podemos perder de vista que, desde a experiência da libertação do povo no Egito, Deus se deixa encontrar nos acontecimentos humanos, na história, na vida concreta. As palavras são divinamente inspiradas, mas refletem também a cultura, a maneira de entender o mundo, a vida própria dos seres humanos de cada época.
Quem ignora que Deus nos fala através de fatos na história acaba por desconsiderar a diferença entre a cultura da época do texto e a compreensão atual das coisas.
Mas se Deus nos fala em linguagem humana, em épocas específicas com formas próprias de entendimento. Para compreender de verdade o que ele disse então e permanecerá sempre válido, será preciso entender aquela cultura para decifrarmos a mensagem divina ali presente. O divino, o eterno sempre vem unido, assumido pelo humano, pelo transitório, numa síntese que se dá no mesmo sentido da encarnação do Filho de Deus.
O método mais usado pela Teologia para tal é o chamado Histórico-crítico. Este método foi reconhecido pela Igreja como sendo eficaz para se chegar, por meio da investigação da cultura de cada época presente na Bíblia ao que, de fato, o autor quis afirmar sendo isto sim a palavra divina*.
Desta forma, não basta ler a Bíblia para compreender o que Deus nos está revelando. É preciso interpretar as entrelinhas, muitas vezes imperceptíveis à primeira vista, quando o texto traz fortes marcas culturais de uma época.
Colocadas estas importantes questões que dizem respeito à interpretação da Bíblia, voltemos à pergunta colocada.
Os textos mais usados para basear uma possível condenação da homossexualidade na Bíblia estão nos livros do Gênesis (Gn 19, 1-11), Levítico (Lv 18,22 e 20, 13), Juízes (Jz 19,22-30) e na carta de São Paulo aos Romanos (Rm 1,26-27 – veja a pergunta 5) .
Vamos analisar, de acordo com a interpretação não-fundamentalista, aquela que leva em conta o contexto cultural da época, cada um dos textos do Antigo Testamento mencionados acima.
• Gn 19, 1-11: Episódio que trata da destruição de Sodoma e Gomorra. Lot acolhe estrangeiros em sua casa: na verdade, são anjos de Deus. Os homens da cidade vão até à casa de Lot, pedindo que os entreguem a eles para que mantenham relações sexuais. Lot se nega a fazê-lo porque os homens estrangeiros se “acham debaixo da proteção do seu teto” (versículo 8). Ou seja, o crime de Sodoma e Gomorra foi violar o sagrado costume da hospitalidade. Jó não se recusa a entregar seus convidados aos homens da cidade, alegando a imoralidade de tais relações, mas porque estavam eles em sua casa. Era seu dever, portanto protegê-los do que seria um possível estupro grupal masculino**.
• Jz 19, 22-30: Aqui, o que também impede que o homem hospedado na casa do idoso tenha relações sexuais forçadas com os homens do lugar é a infração do dever da hospitalidade, como se pode perceber pelas palavras do dono da casa: “Não sejam tão perversos. Já que esse homem é meu hóspede não cometam essa loucura”. (v. 23).
• Lv 18, 22 e 20, 13: A proibição de “deitar-se com um homem como se faz com uma mulher” está numa parte mais ampla sobre relações sexuais ilícitas (Lv 18, 1-30) do livro do Levítico. O versículo 13 do capítulo 20 parece ser um desenvolvimento do preceito de Lv 18,22.
O livro do Levítico é um dos mais antigos da Bíblia. Trata-se de uma reunião das leis surgidas ao longo dos primeiros anos da história de Israel como povo, após a libertação do Egito.
Neste contexto, Israel é uma nação jovem que ocupa território vizinho a outros povos que não seguem Javé. É preciso, antes de tudo, fazer com que Israel assuma uma identidade própria. É preciso que todo descendente de judeu libertado no Egito entenda que tem uma nacionalidade, uma terra e um Deus que o distinguem dos outros povos. Daí Deus exigir: “Não procedam como se procede no Egito, onde vocês moraram, nem como se procede na terra de Canaã, para onde os estou levando. Não sigam as suas práticas” (Lv 18, 3). Esta é a razão da longa lista de pecados sexuais no texto. Ela é uma maneira de reafirmar a pertença do judeu ao povo de Israel e distingui-lo de outras nações.
Para nós pode parecer estranho que a construção da identidade nacional passe por algo tão íntimo quanto a vida sexual. E aqui está uma importante diferença entre a sexualidade como é entendida em nossos dias e como era vista na época do livro do Levítico. Diferença essa que, esclarecida, nos ajudará a compreender a aplicação de tal texto para os nossos dias.
Hoje em dia, se tem plena noção de que cada pessoa é um indivíduo com consciência pessoal e interioridade própria; com um “eu” que o torna diverso de todas as outras criaturas na face da Terra. Esse “eu” é o lugar da “profunda interioridade” de onde surge o que cada um tem de mais específico, de mais próprio. O “eu” é a real identidade de cada um de nós.
Se, para nós, é claro que a consciência e a interioridade são o que determinam o “eu” de cada um e, por isto, em última instância, são o que determinam a sua pessoa, o mesmo não acontece no Antigo Testamento. O conceito mesmo de “pessoa” vai surgir muito depois, já no cristianismo.
Os primeiros textos do Antigo Testamento nem mesmo reconhecem a individualidade de cada um, mas somente o grupo , o clã. É por isso que tantas vezes se encontra nesta parte da Bíblia a afirmação de que Deus castiga os pecados dos pais nos filhos (Ex 20,5; Nm 14,18; Dt 5,9; etc.). Se para nós parece injusto – já que cada um deve arcar com a conseqüência dos próprios atos –, só é injusto porque entendemos que cada um, os filhos e os pais, por mais que sejam próximos, são indivíduos distintos. Já que as culturas do Antigo Testamento não tinham tão evidente a noção da individualidade, pensava-se em termos de clã. Daí não ser estranho que pessoas do mesmo grupo tivessem a mesma sorte.
Há uma diferença fundamental entre a nossa compreensão de pessoa e aquela presente nos primeiros textos do Antigo Testamento. Por faltar a noção de individualidade, o papel que o ser humano ocupava na sociedade era a função que ele desempenhava no grupo. Ou seja, o “eu” não vinha da consciência, da interioridade, mas do exterior: a pessoa era aquilo que ela fazia.
Sem conhecer a interioridade que origina o “eu” pessoal, a identidade das pessoas vinha da função que exerciam na sociedade. Um exemplo simplório de como o papel social acaba, em algum nível, originando identidade é o “Seu Antônio da padaria”, o “João Pedreiro”, etc.
Sendo assim, no Antigo Testamento, não havia lugar para se compreender a homossexualidade da maneira como hoje a entendemos. Se era o “exterior” que determinava o “interior” da pessoa, o fato de nascer “homem” ou “mulher” era o suficiente para determinar que tipo de relações iriam ser construídas.
A compreensão de pessoa da época não dava espaço a qualquer manifestação que partisse de afetividade ou de um “eu” pessoal distinto do papel na sociedade, já que, como vimos, era o papel social que determinava a pessoa. Compreendendo-se este raciocínio, entendemos também como outras manifestações que desafiam o papel social e pressupõem uma atitude mais pessoal não eram entendidos no Antigo Testamento, como o celibato. Se o homem e a mulher têm capacidade reprodutora, o que a sociedade esperava deles é que se reproduzissem.
Desta forma, a condenação presente no livro do Levítico de um homem “deitar-se com um outro como se faz com uma mulher” serve tanto para ressaltar a identidade do judeu como membro do povo israelita – já que outros povos praticavam tais atos –, quanto para dar a identidade específica a cada um dentro do povo de Israel, identidade essa formada não a partir da consciência pessoal, mas dos papéis desempenhados na sociedade.
Bem diferente é a questão da homossexualidade nos dias de hoje. Não é mais a sociedade, em última instância, que determina o indivíduo (ainda que tenha um importante papel no processo), mas a sua própria consciência. Além disso, as sociedades atuais se encontram em outros estágios de desenvolvimento, onde são possíveis papéis sociais bem mais flexíveis.
5. Por que Paulo, na carta aos Romanos, afirma que a homossexualidade é anti-natural?
A única passagem do Novo Testamento que faz menção a relações entre pessoas do mesmo sexo está no primeiro capítulo da carta aos romanos (Rm 1, 26-27).
Usamos a expressão “relações entre pessoas do mesmo sexo” pois seria discrepância histórica aplicar o termo “homossexualidade” à passagem. Sempre houve relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo, mas a compreensão de homossexualidade só surgiu no século XIX (é relativamente recente a consciência de ser uma “orientação” independente de escolha e elemento constitutivo da interioridade, do “eu” de muitos indivíduos).
Antes de fazer uma aplicação direta do texto de Paulo – escrito no século I – para os nossos dias – vinte séculos depois –, temos que considerar como eram entendidas as relações entre pessoas do mesmo sexo naquela época e compreender os conceitos usados na passagem em questão.
Um texto reflete a maneira que o autor vivencia a realidade de seu tempo. Não se deve aplicar a escritos bíblicos o entendimento atual da realidade, e sim deixar que eles falem por si. É cotejando a realidade de hoje com a de então que nossos dias podem ser iluminados pelas palavras do texto. Tal postura em relação à interpretação da Bíblia foi recomendada pelo Concílio Vaticano II.
Vejamos o caso da epístola aos romanos. Diz o texto: “Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher , arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração.”
Paulo escreve para uma comunidade majoritariamente formada por cristãos vindos do judaísmo residentes em Roma. Na capital do imenso império de numerosos povos, era comum o convívio de diferentes culturas e diversas crenças, ainda que houvesse uma religião oficial do Império.
Em pleno “caldeirão” de povos e culturas, Paulo realça a identidade judaico-cristã da comunidade para a qual escreve. Em versículo anterior à passagem destacada, ele lembra que à diferença de todos: eles não são idolatras pois não trocaram a “Glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis.” (Rm 1, 23). Como conseqüência da idolatria, Deus entregou homens e mulheres à impureza sexual.
Tais relações de homem com homem e entre mulheres são impuras porque abandonam o uso natural do sexo oposto: são anti-naturais. Aqui está uma questão importante. A palavra “natureza” possui diversos significados de acordo com o contexto em que é empregada. Quando falamos de “natureza humana”, entendemo-la como a dimensão do ser humano que é radicalmente a mesma para todas as pessoas: anatomia, processos biológicos etc. Mas ser humano é muito mais do que possuir certa anatomia ou compartilhar os mesmos processos biológicos. Ser humano significa também, ou principalmente, fazer uso da razão e da capacidade de se relacionar. E, por meio da inteligência e das relações estabelecidas (o conjunto total de relações de um grupo é a sociedade), o ser humano acaba atribuindo diferentes significados e experimentando de formas diferentes o que diz respeito à parte biológica de sua vida.
Um animal ou uma planta se reduz basicamente a seus instintos. Podemos dizer que essa é a sua natureza. Já a natureza do ser humano é dar significado e interpretar tudo na vida de acordo com um conjunto de valores que vai sendo construído em sociedade. Processos biológicos como nascimento, reprodução, doença e morte, comuns a todas as pessoas, são interpretadas de formas muito diferentes conforme a cultura de cada um. O “natural” no ser humano é atribuir sentido a tudo. Aquilo que faz parte da natureza humana não é simplesmente algo objetivo, explícito e presente em todos os homens e mulheres de forma clara. O natural é o sentido, os significados que foram sendo atribuídos a cada acontecimento da vida e que se tornaram a interpretação padrão destes.
A partir deste enfoque, é preciso conhecer o que Paulo, a cultura judaica e a cultura romana entendiam como “naturais” aos homens e às mulheres. Somente assim poderemos compreender a classificação das relações de pessoas com outras do mesmo sexo como “anti-naturais”.
A diferença entre homens e mulheres é natural, anatômica, orgânica. No entanto, a maneira como essa diferença foi interpretada ao longo da história, em cada cultura, dá origem aos papéis masculino e feminino em cada sociedade.
Até bem pouco tempo atrás, o papel social da mulher era ligado à família, ao cuidado dos filhos e do marido, enquanto o homem era visto como o provedor da casa e o chefe de família. Explicava-se: cada um desses papéis era “natural”. Por causa de sua natureza específica, homens e mulheres teriam propensão natural para essas atividades. Com o Feminismo e outras transformações sociais, percebeu-se que o que parecia natural era, sim, fruto de costumes e tradições que há séculos estabeleciam o “natural” a cada um dos gêneros sexuais (masculino e feminino). A partir de então, surgiram novas matizes na maneira de ambos se posicionarem na sociedade.
O exemplo do papel social da mulher pré-Feminismo confirma a dependência de convenções culturais do que seja a “natureza humana” em suas especificidades e torna mais claro o sentido do texto de Paulo na carta aos Romanos. O que se esperava dos homens e mulheres, qual era o papel do masculino e do feminino que fazia as relações entre pessoas do mesmo sexo serem consideradas anti-naturais?
Não há como expor aqui todo o processo histórico que resultou na concepção do homem possuir uma natureza específica que o habilitava para desempenhar um papel na sociedade que não poderia ser ocupado pela mulher e vice-versa. Neste sentido, a natureza do homem era pensada com os seguintes atributos: atividade, dominação, controle, penetração, preocupação com a honra da família, representante da família fora do círculo familiar. Já a natureza feminina era entendida como passiva, subordinada, controlada, penetrada, preocupação com a vergonha da família, representante da família no interior do círculo familiar.
Acreditava-se que o sêmen era um “ser humano em proporções mínimas”: a vida surgia exclusivamente da semente do homem. A mulher era o campo que preparava tal semente. Sua função era exclusivamente receber, acolher o sêmen. Este caráter de atividade masculina e passividade feminina perfazia todos os papéis sociais de homens e mulheres.
E esta aí o motivo das relações entre pessoas do mesmo sexo serem consideradas anti-naturais. A mulher que assumia o papel ativo em uma relação com outra mulher e o homem que se tornava passivo negavam a sua própria natureza de homem e mulher como entendida na época. Além disso, no caso dos homens, tal relação significava o desperdício do sêmen, o que era praticamente um crime, visto o sêmen já ser uma pessoa, ainda que não desenvolvida. Talvez assim explique-se a inexistência de qualquer condenação à relação entre mulheres no Antigo Testamento: neste tipo de relação, não há desperdício do precioso sêmen do povo eleito por Deus.
Se os processos biológicos e a anatomia permanecem inalterados ao longo dos séculos, o mesmo não acontece com a maneira como é compreendido o que seja o especificamente masculino e o feminino nas sociedades.
Relações entre pessoas do mesmo sexo não entendidas a partir da interioridade de cada um, mas do papel social esperado, são condenadas, na carta aos Romanos, como desvio. Uma resultante da idolatria religiosa dos pagãos, que subverte o que era próprio e aparentemente imutável: a compreensão do papel do homem e da mulher.
A consciência atual de que as categorias “masculino” e “feminino” são resultantes, em grande parte, de processos culturais deixa claro que o “eu” não é determinado inteiramente por um papel desempenhado na sociedade. Considera-se, primeiro, a interioridade.
A ausência de um “eu” pessoal na antiguidade capaz de transmitir aos outros a identidade mais verdadeira faz com que o ser humano seja entendido meramente de acordo com o papel social construído para ele ao longo dos séculos, definido por sexo, cor, classe social. Quando a sociedade espera de todos papéis heterossexuais, e se são estes papéis que determinam quem cada um “é”, as relações com pessoas do mesmo sexo só podem ser compreendidas enquanto desvio da norma.
Quando se aceita, em sentido amplo, que a natureza do homem corresponde à atividade e a da mulher, à passividade, se é contrário não apenas a relações entre pessoas do mesmo sexo mas também a qualquer mudança no papel social que desafie essa maneira de entender o masculino e o feminino. Por exemplo, se é contra mulheres que trabalham fora ou os pais que mantém uma relação mais afetiva com os filhos.
6. A homossexualidade é uma doença? Ela tem cura?
Durante muito tempo, a homossexualidade não existiu. Explica-se: homens e mulheres tinham relações com pessoas do mesmo sexo, mas não eram classificadas como homossexuais. Os atos homossexuais poderiam ser considerados, no máximo, atos pecaminosos, mas isto não era entendido como uma orientação, um estado permanente da pessoa.
Foi no século XIX que surgiu a palavra homossexualidade. Um médico cunhou o termo para defender a existência de indivíduos cuja orientação sexual se dava por pessoas do mesmo sexo de maneira permanente. Logo esta primeira intenção positiva de cunhar um termo que correspondesse às vivências e desejos de uma parcela da população passou a ser utilizada de maneira depreciativa. Homossexualismo tornou-se um diagnóstico que apontava o portador de um desvio, uma doença.
Inúmeras foram as tentativas de descobrir a causa da “doença do homossexualismo”. Várias pesquisas a respeito da composição, das dimensões dos órgãos dos homossexuais procuravam entender o que provocaria tal distúrbio. Vários tratamentos foram sugeridos.
Chegou-se a transplantar testículos de animais machos para “fabricar” hormônio masculino, já que, na época, o homossexual era visto quase que exclusivamente como efeminado. Além da área médica, muita literatura criminalística afirmava que os homossexuais tinham uma tendência maior para a malandragem, para o crime.
Esta visão tétrica só começou a ser transformada quando, por meio do movimento gay, os próprios homossexuais passaram a falar sobre si mesmos, a produzir um discurso sobre si.
Não mais somente a medicina ou a polícia tinha algo a dizer sobre os gays, mas também estes tinham uma voz e com isso, foi aumentando o diálogo na sociedade a respeito desta questão e se desfazendo muitos preconceitos existentes.
Também a ciência avançou na questão. Até bem pouco tempo, a Psicologia considerava a homossexualidade um distúrbio. Na década de 1990, houve a recomendação expressa para que fosse retirada a homossexualidade da lista de doenças. As ciências a consideram uma orientação sexual minoritária, tão normal quanto a orientação heterossexual.
Há ainda muitos setores da sociedade que não aceitam a “normalidade” da orientação homossexual. É compreensível que isto aconteça visto as mudanças tanto na medicina quanto as trazidas pelo diálogo do movimento gay com a sociedade serem muito recentes.
Isto não quer dizer, no entanto, que não tenhamos que nos mobilizar para esclarecer a questão mesmo onde há mais resistência.
Há de se prestar bastante atenção em pesquisas científicas que procuram a causa da homossexualidade. Muitas vezes, esta procura ainda supõe, de alguma forma, a homossexualidade como uma espécie de anomalia, de situação não natural. Pode haver ainda preconceito motivando tais pesquisas. Por que não procurar também a causa da heterossexualidade?
Desde que os conselhos de Psicologia retiraram a homossexualidade da lista de distúrbios psicológicos, é proibida qualquer iniciativa de reversão da homossexualidade, qualquer tipo de “tratamento psicológico”. Não há o que tratar.
Uma pessoa gay pode até controlar seu desejo, ser celibatária, se assim desejar, mas não pode deixar de ser homossexual, de possuir esta tendência, esta orientação. Infelizmente ainda há psicólogos envolvidos em iniciativas como estas, geralmente promovidas por grupos religiosos protestantes neopentecostais e até católicos. Um documento da Igreja Católica americana desaconselha terminantemente tais “tratamentos”. Os profissionais envolvidos estão sujeitos a processo nos seus respectivos conselhos regionais de psicologia.
Por fim, para sermos atentos também com as palavras, o correto é “homossexualidade” e nunca “homossexualismo”, já que o sufixo “ismo” designa um estado doentio
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