sábado, 14 de março de 2009

Sobre a graça...

A graça é hoje a mais escandalosa de todas as mensagens cristã.


As pessoas se convertem a igreja e não a cristo. O Jesus que é apresentado, e moldado para ficar parecido com o grupo religioso o qual a igreja pertence, na maioria das vezes é uma fabricação feita para validar as teses do grupo, e este Jesus apresentado, não pode fazer mais nada, quem fará agora é apenas o homem, a leitura dos evangelhos é entendida como adaptação.


Na igreja evangélica atual, primeiro o indivíduo tem que ser salvo do Jesus inventado, ou seja, o Jesus dos evangélicos para poder conhecer o Jesus do evangelho.


Ouvimos muito, tudo já foi revelado, e existem várias linhas ou correntes de como ver o evangelho, eu acredito nesta linha ou naquela, enfim..., mas nem percebe que ela tem uma cara totalmente diferente de anos atrás, e continua fechado e limitado ao tempo.


Imagino o que Paulo diria se estivesse presente em um ano de eleição, em nossas igrejas, e visse a negociação de votos que são feitos em prol do nome de Jesus e o futuro da igreja, e o comercio livre de tantas coisas. Pessoas andando sobre sal grosso, ou levando para casa águas tonificadas do Jordão, ou passarem pela cruz de Cristo, ou quem já não chegou em sua igreja para um culto, e se deparou dentro dos muros da igreja uma mesa com uma bela toalha, com muitos CDs ou livros colocados a venda e até mesmo que a fé é um sacrifício que se expressa com dízimo, ou troca de benção por dinheiro, ou até campanhas e correntes longas, que são meios de sempre angariar dinheiro, como atitude de fé. Que carta será que Paulo escreveria para nós.


Paulo quando evangelizava, ele levava às pessoas a consciência da graça salvadora de Jesus, e da possibilidade da experiência da liberdade salvadora. Hoje quando evangelizamos fazemos a fim de que a igreja cresça com poder visível, ou seja, crescimentos em números, dando como desculpa ganhar almas para Cristo.


Nós dizemos salvos pela graça, isso na chegada, e aí oferecemos uma santificação feita pela lei, porém tal santificação anula a graça:


“Pois se a justiça vem da lei, cristo morreu inutilmente.” (Gálatas 2:21)


“E se é pela graça, já não é pelas obras, do contrário, a graça já não é graça.” (Romanos 11.6)


E com isso ficamos num confronto existencial, pois nem nos tornamos filhos da graça à vida toda, e nem nos entregamos aos rigores da lei com honestidades, com isso não usufruimos da saúde e da paz que vem da graça, e nem tão pouco da lei, vivemos num estado permanente de transgressão e culpa.


Vemos que somos doentes e que vendemos cura. Nosso cristianismo não se enxerga mais, dá margem á várias correntes e distinções que não tem mais o conteúdo dos evangelhos.
Consciência indica a pré existência de liberdade, e esta só se manifesta em plenitude quando debaixo da graça, pois somente nela que se perde o medo de ser, seja o que for, onde nenhuma condenação há.


Continuaremos a pecar para que a graça aumente? Não. Temos que saber viver, todas as coisas lícitas, tendo o discernimento de saber o que convêm e o que edifica.


O justo viverá pela fé, ou seja, não como fique livre do pecado, mas que ainda que viva no pecado, a graça faz merecedor, ou melhor, não é mérito, mas a graça de Cristo sobre ele torna-o merecedor.


O caminho da graça não gera libertinagem, e sim da liberdade de ser, sem medo, o que realmente é, sem decorrer das neuroses provocada pela lei, ou seja, pela lista religiosa das coisas que pode e das que não pode.


Hoje ensinamos aos cristãos a uma transformação de ocasião, uma conversão para fins eclesiásticos, uma supressão de tudo que choca a religião, uma espiritualidade de fachada, desde que esteja dentro da media comunitária. Isso é a figueira sem frutos, mas cheias de folhas, não entendendo porque depois, de tanto tempo do evangelho, o que habita em seu interior, são as mesmas raivas, angustias, escravidão, só que agora vestida de santidade exterior, pela interpretação adaptada da bíblia, que os faz sentirem, seres superiores, uma raça cheia de méritos por ser santa, um povo que acha que por ser propriedade exclusiva de Deus, sem o verdadeiro conhecimento que esta eleição é fruto de pura graça, que independente de ter deixado de fazer, ou que fazemos o que for, ela (a salvação) é feita de pura graça.


O caminho da graça não carrega ilusões, nem frustrações, nem esperamos ninguém virar anjo, ou levitar, ou ser levado na carruagem de fogo da santidade, ao contrario posso afirmar que meus esforços pessoais na tentativa de não me chocar com mais nada, posto que não ha nada que você tenha feito que, ao menos em potencial, não exista em mim também. Não lidamos com robôs, nem com super crentes, e nem nos interessamos por sensações de que tudo esta sobre o controle da comunidade vigiada.


Logo esta suspenso o meu direito de me escandalizar com qualquer que seja a verdade sobre você. Prefiro caminhar com você a partir de suas lutas e temores que trazemos embutidos em nós nas tribulações e drama da vida.


O caminho está aberto a todos, somos devedores, homens, mulheres, adolescentes, crianças jovens, de todas as tribos, línguas e nações, sejam homossexuais, heterossexuais, fiscais de tributos, empresários, estudantes, políticos, donas de casa, ricos, pobres, intelectuais, analfabetos, casados, solteiros, divorciados, viúvos, enfim a todos quantos se encontram carecendo da gloria de Deus, porque não conhecem em seus corações a conversão que o evangelho realiza por meio da fé, através da graça de nosso senhor Jesus Cristo, único mediador de Deus e os homens.


O termo EKKLESIA, sintetiza de forma impressionante o ser igreja. São os chamados para fora, no entanto na historia cristã preponderou o caminho inverso, aqueles que torna os discípulos em gente chamada para dentro, ou seja, deixe o mundo, para só considerarem irmãos os membros, e não buscarem relacionamento fora de tal ambiente.


Lendo o evangelho, é difícil conceber que Jesus sonhasse com aquele que se deu, no qual chamamos de igrejas.


Vemos Jesus com toda a sua desinstalação, com toda a sua mobilidade, com ênfase na igualdade de todos, com denuncias aos poderes religiosos, e com todas as pertinências a vida, fosse para cura da mente, do corpo ou do espírito, fosse para anunciar a destruição do templo como lugar de Deus, fosse para beatificar samaritanos ou demonizar religiosos, e ainda assim imagina que Jesus tem qualquer coisa a ver com o que chamamos de igreja.


Não se vê Jesus tentando criar uma comunidade fixa e fechada, ou seja, nenhum interesse em reclusão comunitária. Igreja segundo Jesus, é a reunião de dois ou três, em seu nome, e em qualquer lugar. É algo que acontece com o encontro com Deus, com o próximo e com a vida.


O melhor lugar para fazer discípulos e nas portas do inferno, no meio do mundo, as maiores demonstração de fé, vem de fora da religião. Temos que ser treinados a espalhar sementes, a salgar, a levar amor, a caminhar em bondade, e a sobreviver com dignidade no caminho, com todos os seus perigos e possibilidades. Jesus é o caminho em movimento, nos caminhos da existência, e seus discípulos são acompanhantes sem distinção entre eles. No mais, existe a multidão, as quais Jesus as junta apenas uma vez, isto a fim, de multiplicar pão, ele apenas ensina a palavra enquanto cura os que se encontram doentes, e liberta os cativos, dos restos a multidão vem e vão, ficam ou não, voltam, ou nunca mais aparecem, gostam ou escandalizam-se, maravilham-se ou acham duros os discursos, e Jesus nada fez para mudar isso.


Ele não pretendia que os seus discípulos, fossem mais irmãos uns dos outros, do que todos os homens. Ele não queria que o sal da terra se confinasse a quatro dignas paredes de um saleiro comunitário. Ele não deseja tirar ninguém do mundo, da vida, da sociedade, da terra, mas apenas deseja que sejamos livres do mal.


Jesus não disse, eu sou a religião, a doutrina e a igreja, e ninguém vem ao pai se não for por mim. A igreja dos chamados para fora, encontra com os irmãos de fé e também com o próximo que não tem fé, e todos são tratados com amor e simplicidades.


Em Jesus os discípulos são apenas homens que ganharam entendimento do reino, e vivem como cidadãos, não numa comunidade paralela, mas no mundo real. Perceberam-se as exigências que hoje são colocadas para se alcançar salvação, foi justamente para nivelar o que a maioria acreditava que o homem, fosse responsável pelo seu pecado, como algo opcional a ele, humano, tendo poder, e assim exigindo igual força a cada um para abandonar.


Jesus espera que cada um se entregue a seu evangelho e viva conforma a simplicidade da fé, que acredita que tudo esta feito. E que não sobrou tarefa a complementar e vicária a ser realizada por mais ninguém, sem reguladores da fé, e isso é possível, pois Jesus é tudo, e o espírito do evangelho da graça é a única lei da vida.


Precisamos crescer em vida com Deus, em amizade clara e respeito uns para com os outros, sem acepção de pessoas, em saúde relacional na vida, gente com liberdade de escolhas pessoais conforme a consciência e o entendimento de cada um, e segundo a verdade absoluta que nos molda a mente conforme a sua vontade.


O ajuntamento que até podemos chamar de igreja, deve ser esse encontro, essa estação, esse lugar de bom animo e adoração, estes encontros precisam gerar amizades, e pelas amizades as pessoas se ajudarem, mesmo quando não derem nenhuma contribuição financeira no lugar. Ela não tem sócia ou associada, tem apenas gente que se reúne e ajuda a manter tudo que promove a palavra de Deus, um caminhar profético, aberto e contínuo, conforme Jesus nos evangelhos.


A vida vai aumentar em flores e em frutos entre nós e no mundo em nossa volta, e as pessoas serão sempre muito mais humanas e sadia, deixando cumprir o que Jesus disse que sem Ele nada podemos fazer. E que não podemos acrescentar um centímetro em nossa altura, e que foi Ele quem nos escolheu, e é Deus quem nos atrai a Cristo.


O vento sopra para onde quer, não sabe de onde vem, nem para onde vai, assim é todo o que é nascido do espírito.


O justo, porém, viverá cada dia apenas da fé, e o importante não é saber para onde vai, mas a quem esta seguindo. O interessante é que Jesus é o caminho, e segui-lo é a própria certeza de onde se estar indo. Ele chamou para si mesmo o direito do vento, e cumpre a nós apenas seguir em verdade, pois o alvo da jornada é vida no Pai.

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